Violência sexual. E se fosse com o seu filho?

Procurar apoio é uma decisão determinante na vida de um homem sobrevivente de violência sexual. É o início de um processo com altos e baixos, e por vezes com momentos muito difíceis. No entanto, por mais atribulada que esta caminhada seja, os sobreviventes que finalizam o apoio referem que este foi essencial para retomar uma vida estável, livre das consequências da violência sexual.

Mas por que será assim tão difícil procurar apoio? Um dos vários obstáculos à procura de apoio passa pela forma como a sociedade recebe e reage à ideia de que os homens também podem ser vítimas de violência sexual.

Décadas a sofrer em silêncio

Em média, um homem que tenha sido vítima de violência sexual demora cerca de 26 anos para procurar apoio. Mas há casos em que essa não é realidade, e sabemos hoje que há sobreviventes que passam 30, 40, 50 ou 60 anos em silêncio sem nunca partilhar a sua história.

Um dos homens que procurou a Quebrar o Silêncio, fê-lo 45 anos após o abuso e não é um caso isolado. Nas suas próprias palavras, refere que “antes de ter conhecimento da associação Quebrar o Silêncio eu sentia-me a pior pessoa ao cimo da terra. Não gostava de mim, andava perdido por tudo o que se passou na minha vida em criança como na adolescência, por ter sido violado várias vezes com ameaças e de se terem aproveitado da minha ingenuidade. Eu estava com uma revolta dentro de mim que só me apetecia matar-me, entrei nas drogas para esquecer e estava com uma revolta dentro de mim que nem ligava para a vida que estava a levar. (…) Hoje sinto-me outra pessoa, mais alegre.”

A verdade é que procurar apoio não é uma decisão fácil, especialmente quando se passaram décadas desde o abuso e vários homens sobreviventes passam a maioria da sua vida sem partilhar a sua história e sofrem em silêncio. Se este processo, por si próprio, já é bastante complicado, a questão que coloco é a seguinte: enquanto sociedade queremos ter vítimas e sobreviventes de violência sexual sem acesso ao apoio que merecem?

Humanizar é urgente

A verdade é que há quem acredite que os homens e rapazes não podem ser vítimas de violência sexual. Quando vejo pessoas que desvalorizam por completo a partilha dos sobreviventes, que os acusam do abuso, que os responsabilizam por não terem conseguido impedir o abuso ou troçam dos mesmos porque, nessa visão redutora e nociva, foram fracos e menos homens, constato também uma colossal falta de informação e de empatia.

A realidade diz-nos que 1 em cada 6 homens é vítima de alguma forma de violência sexual antes dos 18 anos. No entanto, esta realidade continua a ser pouco reconhecida, o que reforça a sua dimensão de tema tabu, contribuindo para o silenciamento dos sobreviventes de violência sexual.

Esta estatística é uma verdade assustadora para muitos e permite-nos perceber que a maioria destes homens ainda não se sentem seguros para procurar apoio. Porque a cultura de responsabilização das vítimas estão enraizada na sociedade e isso está patente nos vários comentários acerca de casos de violência sexual.

O sobrevivente que é o marido, o pai, o filho

Quando interagimos com alguém nunca sabemos o histórico dessa pessoa. Por isso é preciso reconhecer que um homem sobrevivente pode ser qualquer homem que conhecemos. Pode ser o nosso irmão, pai, marido, companheiro, amigo, vizinho e o nosso filho. É urgente que esta informação seja reconhecida e assimilada por quem continua a ignorar a realidade dos sobreviventes.

Basta fazer as contas: se 1 em cada 6 homens e 1 em cada 3 mulheres é vítima de alguma forma de violência sexual, podemos facilmente compreender que a violência sexual é verdadeiramente endémica (para citar a Margarida Medina Martins, presidente da AMCV) e está mais presente no nosso quotidiano do que julgamos.

Contribuir para a solução ou para o problema?

Partilhar a sua história pode representar um passo arriscado para um homem sobrevivente, mesmo que seja com alguém da família, uma pessoa amiga ou da sua confiança. Esta partilha é um ato de coragem, de força e que marcará a vida do sobrevivente. É fundamental valorizar este ato e mostrar que não está sozinho.

É necessário informar e educar. Enquanto sociedade, temos de ser capazes de criar um espaço seguro para que os sobreviventes de violência sexual possam partilhar as suas histórias e procurar apoio sem medo ou receio de reações negativas e adversas.

No fundo, sempre que alguém troça, desvaloriza, ignora ou responsabiliza as vítimas pelo abuso de que foram alvo, está a contribuir para o longo e doloroso silêncio das mesmas. E a certa altura é preciso questionar e confrontar: queremos fazer parte da solução ou do problema?