As mulheres invisíveis, secundárias e auxiliares

Katherine Johnson fez 100 anos e foi notícia por todo lado. Mas quem é Katherine Johnson? Conhecida por “computador humano”, esta mulher negra foi a cientista espacial, matemática e física que trabalhou na NASA durante 33 anos e cujas contribuições, em cálculos matemáticos, foram fundamentais para a exploração espacial dos EUA. Em 2016 foi eleita, pela BBC, como uma das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras.

No entanto, alguns meios portugueses da comunicação social fizeram os seguintes títulos:

Estamos em 2018 e incomoda-me quando vejo títulos que invisibilizam mulheres e que as reduzem de uma forma tão “normal” a um papel secundário e auxiliar.

No primeiro título, refere-se que K. Johnson ajudou o homem a chegar à lua e no segundo o seu nome nem sequer é referido; em vez dela, fala-se do astronauta John Glenn. Não faz qualquer sentido. O nome Katherine Johnson deveria ser válido por si só, e quando leio “ajudar” imagino um cenário em que ela deu a mão ao astronauta quando este subia as escadas, ou noutro no qual ela lhe deu boleia para o trabalho. Só me passam ideias destas pela cabeça. Porque a verdade é que Johnson trabalhou 33 anos na NASA e garantiu que a missão Freedom 7, Project Mercury e Apollo 11, só para dar alguns exemplos, fossem um sucesso.

Portanto não se trata de ajudar. É uma colaboração, é contribuir, é criar em nome próprio. Katherine Johnson, tal como qualquer outra mulher, não pode ser renegada para a sombra do homem, vista como uma auxiliar, subserviente. Temos de dar-lhe o devido crédito.

O homem que é o centro do mundo

Este caso não é único, nem é isolado. Nos Jogos Olímpicos de 2016, o Chicago Tribune publicou um tweet dizendo que a “mulher do atacante dos Bears ganhou medalha de bronze nos jogos olímpicos”, sem fazer referência sequer ao nome da atleta Corey Cogdell ou qual a modalidade em que competia. No mesmo evento, Katinka Hosszu estabeleceu novo recorde mundial, vencendo a medalha de ouro nos 400 metros medley feminino. O comentador da NBC, Dan Hicks, achou que o crédito era do marido e treinador de Hosszu. Quando as câmaras focaram Shane Tusup, Hicks referiu “e aqui está o homem responsável”.

A forma como são noticiados estes eventos é sintomática de um problema maior. Estas “simples” notícias estão enquadradas numa perspetiva e visão tradicional na qual o masculino é o “default”, e está de tal modo enraizada que todas e todos somos apanhados nessa teia. Tal como Teresa Fragoso afirma, “estamos imersos nesta cultura desigualitária e nem nos apercebemos (…) Naturalizamos uma situação de desigualdade. Tem a ver com estereótipos de género. Na esfera pública os homens são capacitados para agir, para serem mais assertivos e interventivos e as mulheres para serem emocionais, sensíveis e cuidadoras.”

Precisamos de questionar e desafiar os estereótipos de género. É urgente que o façamos. Esta visão tradicional é redutora e perigosa, essencialmente para as mulheres e raparigas, mas também para os homens e rapazes.

O grande panorama da priorização das lutas sociais

Sei que para algumas pessoas estas questões parecem insignificantes. Para estas pessoas o prioritário é combater a violência de género, doméstica e sexual, a desigualdade salarial ou a mutilação genital feminina. Todos estes problemas são importantes e têm de ser combatidos, disso não há a menor dúvida. A minha opinião é que estas questões “aparentemente” pequenas, inferiores, menores, fazem parte do mesmo problema e não só não estão separadas, como devem ser trabalhadas em simultâneo.

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