Homem a sério não recicla

As masculinidades tóxicas não são só nocivas para as mulheres, raparigas, homens e rapazes. O planeta e o ambiente também são prejudicados. Segundo os estudos “Gender, Values, and Environmentalism” de 2003 e “New Ways of Thinking about Environmentalism: Elaborating on Gender Differences in Environmentalism” de 2002, entre vários outros, regista-se que as mulheres demonstram uma maior preocupação e comportamentos ambientalistas que os homens.

Segundo a Scientific American, o não envolvimento dos homens em assuntos verdes está relacionado com a afirmação da masculinidade tradicional, isto é, para estes homens as preocupações ambientais pertencem ao domínio feminino, o que não quer dizer que não se preocupem de todo ou que sejam anti-ambiente. No fundo, eles evitam, ou rejeitam mesmo, esses comportamentos devido à forma como percepcionam a masculinidade. E se há algo que a masculinidade hegemónica tem receio é que os homens abandonem os comportamentos hipermasculinizados e adotem atitudes ditas femininas. Isso é que não!

E porque se continua a valorizar e a reproduzir estereótipos de género e ideias como a que homem que é homem não se preocupa com “coisas de mulher”, as políticas de preservação e proteção do ambiente pagam a fatura. Ações tão simples como rejeitar, reduzir, reutilizar e reciclar ficam fora do espetro do que é permitido aos homens, porque ameaçam a sua masculinidade. E comportamentos aparentemente tão simples e inofensivos como levar de casa um saco reutilizável para ir às compras não são permitidos.

Homens e mulheres com perceções tradicionais.

A visão tradicional da masculinidade, e já agora da feminilidade, não são exclusivas a nenhum dos géneros. O estudo da Scientific American, que envolveu mais de 2000 participantes, concluiu que tanto eles como elas consideram que comportamentos verdes são percecionados como mais femininos, e por isso os homens acabam por evitar produtos e atitudes verdes para não se sentirem emasculados. Numa experiência desse mesmo estudo, foram distribuídos a um conjunto de homens dois cartões brinde, um padrão e um outro rosa com desenhos florais. De seguida, foi-lhes pedido que adquirissem 3 produtos entre lâmpadas, mochilas e baterias. Os homens com os cartões rosa demonstraram ser mais propensos a comprar versões dos produtos menos amigos do ambiente do que os homens com os cartões padrão.

Segundo as conclusões da Scientific American, no artigo “Men Resist Green Behavior as Unmanly”, a ideia de ver a sua masculinidade afetada de algum modo faz com que também reforcem comportamentos nocivos para o ambiente, como desperdiçar água ou uso excessivo de electricidade, para compensarem a sua masculinidade.

Mudança de paradigma

A mudança passará sempre pela educação. Um bom exemplo é o da reciclagem, que começou a fazer parte do nosso dia-a-dia quando as escolas introduziram políticas e estratégias que fizeram com que as crianças levassem para casa os caixotes tricolor, para que pais e mães começassem a aderir à mesma (ou segundo os estudos, mais as mães do que os pais). Precisamos também de trabalhar as masculinidades desde cedo e desmistificar com as crianças que não há comportamentos ditos de rapariga ou de rapaz. E a forma como estes homens se comportam face ao ambiente é um bom exemplo do quão urgente é trabalhar estas questões desde o pré-escolar. Portanto, junte-se os tópicos verdes aos restantes temas para promover uma sociedade equitativa.

A par da educação, também há que mudar as estratégias do marketing e publicidade. Para quem são destinadas as campanhas que vemos nos media? Que tipo de valores reproduzem? Estão a contribuir para uma desconstrução dos estereótipos de género ou a contribuir para o seu enraizamento? Se para os produtos domésticos como lixívia, ambientadores, esfregonas e tudo mais, o público-alvo continua a ser maioritariamente as mulheres, talvez esteja na hora de haver uma reformulação total. Porque os homens também têm as mesmas capacidades que as mulheres para limpar, lavar e cuidar da casa, também têm as mesmas capacidades para se preocuparem com o ambiente. Só basta educar para tal.

Referências para a escrita deste texto: