Violência sexual: “era o preço a pagar pelo carinho”

author: Tomaso Clavarino https://www.tomasoclavarino.com/
Fotografia Tomaso Clavarino

“Era o preço a pagar pelo carinho”. Esta é uma das citações de Francesco Zanardi, um homem sobrevivente, no artigo O fim do silêncio das vítimas de pedofilia da Igreja Católica italiana, publicado no Público. Todo o texto, que foca o trabalho do fotógrafo Tomaso Clavarino, é uma denúncia sobre os muitos casos de violência sexual dentro desta instituição religiosa, mas os diferentes relatos também servem para fazer uma reflexão sobre uma realidade que se estende bem para lá das portas da Santa Sé.

Através da leitura destes testemunhos, pode compreender-se como na maioria dos casos existe uma relação assimétrica, um abuso de poder e de confiança por parte do abusador, e também algumas das consequências junto dos sobreviventes, como fortes sentimentos de vergonha, auto-culpabilização e um silêncio que dura décadas.

Relação de poder e abuso de confiança

Era um padre, mas podia ser um professor, um chefe de escuteiros ou qualquer outra pessoa, cuja relação é assimétrica com a vítima. Por vezes, há uma relação de responsabilidade, de confiança ou de poder e um abuso desse mesmo poder e da confiança que a vítima, muitas vezes uma criança, depositava no abusador. Como Francesco Zanardi refere no artigo: ele deu-nos uma família, ouvia-nos, tratava-nos como se fosse nosso pai… A nós, que não tínhamos ninguém…”, demonstra que este padre era alguém que usava o seu estatuto para fomentar uma falsa relação de amizade e de confiança. Este tipo de relação, que muitas vezes é um longo processo de manipulação e sedução (grooming), contribui para silenciar as vítimas, como contribui ainda para que as mesmas não denunciem o caso. A manipulação é de tal modo eficaz que “algumas vítimas ainda consideram errado denunciá-lo porque ele nos amou, mesmo que de uma forma destruidora; porque nos deu o afecto de que um rapaz precisa para crescer”.

Na Quebrar o Silêncio, temos registos de sobreviventes que referem que, antes de procurar a associação, nunca pensaram em partilhar o seu caso porque o abusador era bem visto pela comunidade e ninguém iria acreditar no testemunho da vítima.

Tal como Emílio, outro dos sobreviventes do artigo refere que “O abuso sexual que surge na relação constitui um acto de violência física, sim, porque o contacto é físico, mas a violência psicológica subjacente a esse acto é igualmente relevante. É especialmente grave porque as crianças confiam nesse homem. Para lá do abuso sexual, elas sofrem uma traição. E quando essa vem da parte de alguém que, muitas vezes, é o substituto do pai ou da mãe, o dano torna-se exponencial. É muito importante não esquecer isso.”

Além do abuso de poder e de confiança, é fundamental conhecer algumas das estratégias de manipulação e sedução dos abusadores:

  • Identificar a criança.
  • Seduzi-la.
  • Isolar para garantir momentos a sós.
  • Dessensibilizar a criança ao sexo (seja através do toque ou das conversas que mantém).
  • Recorrer ao segredo para promover o silenciamento da criança.
  • Recorrer a ameaça, chantagem e/ou oferta de bens.
  • Controlo absoluto por parte do abusador.

Consequências e impacto na vida dos sobreviventes

As consequências podem ser várias e devastadoras. Nos grupos de ajuda mútua da Quebrar o Silêncio, por vezes fazemos o exercício de criar um registo coletivo, com os diferentes sobreviventes, sobre esse impacto. É comum que os sobreviventes experienciem:

  • Baixa auto-estima.
  • Fortes sentimentos de vergonha.
  • Auto-culpabilização pelo abuso.
  • Surgimento inesperado de memórias do abuso (flashbacks).
  • Questões sobre identidade e orientação sexual.
  • Evitamento de sentimentos associados ao abuso.
  • Dificuldade em dormir e pesadelos.
  • Situações de amnésia (amnésia seletiva).
  • Dificuldade em gerir emoções (raiva, tristeza, frustração, etc.).
  • Consumo abusivo de álcool ou outras substâncias.
  • Estado de alerta contínuo (hipervigilância).
  • Ausência de inibições ou de limites sexuais.
  • Dificuldade em estabelecer contacto sexual.
  • Dificuldade em ter ou manter uma ereção.
  • Dificuldade em ser assertivo.
  • Ansiedade.
  • Sentir-se “menos homem”.
  • Auto-mutilação.
  • Pensamentos ou tentativa de suicídio.
  • Acreditar que não é possível ultrapassar o trauma do abuso.

Também é comum que os sobreviventes desenvolvem ou adquiram estratégias desadequadas para lidar e gerir com essas consequências. Francesco, o primeiro sobrevivente a ser retratado, começou a consumir drogas, e tal como é referido no texto “toxicodependência, alcoolismo, depressão, tentativas de suicídio são algumas das consequências a longo prazo dos abusos sexuais na infância.”

Pensamentos suicidas são comuns nos homens sobreviventes, devido ao sofrimento que pode ter contornos insuportáveis. Vários sobreviventes referem que querem continuar a viver e que a ideia de suicídio é uma forma rápida de trazer alívio e de resolver o impacto que o abuso provocou na sua vida.

Rapazes carenciados

Outro dos sobreviventes refere que “o lobo caça sempre a ovelha mais fraca” e o fotógrafo Tomaso Clavarino refere que “à data [do abuso], eram crianças pobres que viviam em pequenas aldeias ou vilas onde a Igreja e o padre ainda desempenhavam um papel de grande relevância social”. Os abusadores tendem a procurar crianças que por alguma razão têm características de vulnerabilidade (temporárias ou permanentes). A oferta de presentes ou dinheiro é uma das estratégias que são usadas para crianças de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos, mas é preciso ter presente que a violência sexual não acontece exclusivamente nestes cenários. É fundamental compreender que este tipo de casos acontece independentemente da crença religiosa, etnia, cultura, escolaridade, situação económica, idade, classe social, origem, profissão ou orientação sexual quer do homem sobrevivente, quer do agressor ou agressora.

Em vários casos que chegam à Quebrar o Silêncio, há um contexto comum de negligência parental; mães e pais que, por alguma razão, não deram a atenção que os rapazes necessitavam e/ou que os deixavam desamparados. Pais emocionalmente desligados, castigos excessivos, conflitos familiares e contexto de violência e/ou negligência são fatores de risco que podem aumentar a probabilidade de as crianças serem abusadas sexualmente.

Décadas de silêncio

Várias referências da literatura apontam para que, em média, um sobrevivente demora cerca de 22 anos em silêncio até partilhar a sua história ou procurar apoio. No entanto, dados da Survivors UK, que conta com 32 anos experiência no apoio especializado para homens sobreviventes, apontam para uma média de 26 anos em silêncio. De qualquer dos modos, podemos concordar que cada ano passado em silêncio é um ano de sofrimento que estes rapazes, agora homens, nunca deveriam ter experienciado.

Francesco Zanardi tinha 12 anos quando foi abusado por um padre e passados 30 anos tornou a sua história pública, acompanhada por uma denúncia às autoridades. Na experiência da Quebrar o Silêncio, temos registos de homens que não passaram 20 anos em silêncio, mas sim 30, 40, 50 ou mesmo 60 anos num silêncio tortuoso até conseguirem reunir forças e coragem para procurar apoio.

Este silêncio urge ser reconhecido, para que possamos começar a diminuir todo este tempo em que sobreviventes não têm o apoio que merecem.

A violência sexual para lá da igreja católica

Este caso da igreja católica italiana, bem como o mediático caso da Casa Pia em 2002, são só alguns dos muitos que acontecem. É importante compreender que estas não são situações isoladas nem aconteceram pontualmente nestas organizações. Podem acontecer em instituições religiosas, de solidariedade social, clubes de futebol ou na própria casa da criança. O mito de que a violência sexual só acontece numa rua escura e que o abusador é um estranho, é uma ideia errada. Na maioria dos casos o abuso ocorre na família (incesto) ou o abusador conhece a criança.

É preciso, cada vez mais, haver uma consciência social do contexto em que a violência sexual acontece e em que circunstâncias, e deixar de acreditar que estes casos só acontecem aos outros ou em casa alheia, bem longe da nossa própria família. Enquanto pais, mães, mas não só, é preciso termos presente de que a violência sexual tem características endémicas (para citar a Margarida Medina Martins da AMCV) e que a informação e educação são ferramentas essenciais para a prevenção.