1 em cada 6 homens é vítima de alguma forma de violência sexual antes dos 18 anos

1 em cada 6 homens é vítima de alguma forma de violência sexual antes dos 18 anos. Nesta altura, antes de se atingir a maioridade, não se é propriamente um homem; é-se um rapaz, um menino, uma criança. E a maioria destes casos de violência sexual ocorre na infância, mas é em idade adulta que estes rapazes chegam até à Quebrar o Silêncio, já homens.

E quando apoiamos um homem sobrevivente, também estamos a apoiar a criança. Aquele menino que foi abusado sexualmente – na maioria dos casos por um familiar e alguém da sua confiança – que cresceu sem o apoio de que necessitava, que foi remetido ao silêncio que é comum nas vítimas de violência sexual, e que teve de aprender a sobreviver sozinho para lidar com o impacto e consequências do abuso, muitas vezes desenvolvendo ou encontrando estratégias desadequadas.

Décadas a sofrer em silêncio

Em média, um rapaz que seja abusado sexualmente na infância demora cerca de 26 anos até procurar apoio. Imaginem uma criança de 10 anos que passou por uma experiência traumática de violência sexual e que cresce em silêncio com as consequências do que lhe aconteceu, completamente desamparada. Agora, imaginem que passaram 26 anos e que esse rapaz tem hoje 36 anos, é um homem adulto e procura apoio. É este o sobrevivente que chega até à Quebrar o Silêncio. Mas, como as médias não representam a diversidade destes casos, considero importante referir que muitos dos homens que nos procuram não passaram 20 anos em silêncio, mas sim 30, 40, 50 ou mesmo 60 anos num silêncio tortuoso até conseguirem reunir forças e coragem para procurar apoio.

Quando o sobrevivente chega até nós, independentemente da sua idade, são anos e décadas de uma caminhada minada pelo abuso sexual; de uma vergonha imensa e de uma auto-culpabilização contínua e paralisante. O impacto do trauma é por vezes tão profundo que os próprios homens não conseguem identificar e descrever o que sentem (em muitos, identificamos alexitimia), dizem-nos apenas que estão a passar por um grande mal-estar, e vários chegam até à Quebrar o Silêncio em estado de ruptura e em crise.

O apoio especializado é fundamental para identificar estas questões e muitas outras, e para iniciar um processo que passa pela estabilização do sobrevivente até ao redirecionar da responsabilidade do que aconteceu para o abusador – isto para simplificar um processo complexo.

Falta de compreensão, empatia e os muitos mitos

Quando, na Quebrar o Silêncio, nos deparamos com pessoas que recusam reconhecer que a violência sexual também afeta homens e rapazes (porque apesar de a maioria dos casos ocorrer na infância, não podemos nunca excluir os homens que são vítimas em idade adulta), apercebemo-nos de que há muito trabalho por fazer. É um assunto tabu, e isso contribui para o silenciamento dos sobreviventes de violência sexual e para a manutenção desse mesmo silêncio. Sempre que alguém afirma de forma incrédula que “os homens não podem ser abusados” está, de algum modo, a alimentar esse silêncio e a nefasta cultura de responsabilização da vítima. A verdade é que nunca sabemos quem está à nossa frente, de que histórico de violência pode ou não ter sido vítima. Estas reações e outras no mesmo espectro, deixam bem claro para os sobreviventes que “o melhor a fazer é continuar a sofrer em silêncio, pois ninguém vai acreditar em mim”, reforçando muitos dos seus medos e receios.

A verdade é que nem sempre é fácil criar momentos de debate, esclarecimento e informação. E não é fácil porque o peso dos mitos, preconceitos e ideias estereotipadas continuam a reinar na nossa sociedade. A ideia de que o homem não pode ser vítima, continua bastante enraizada e esta crença é prejudicial porque, repetindo o que disse acima, silencia os sobreviventes, invalidando toda a sua experiência de abuso que foram vítimas e contribui para que não possam procurar apoio.

O que pode fazer cada pessoa individualmente?

Acreditar nas vítimas e sobreviventes, sejam homens ou mulheres. Acreditar nas suas palavras e valorizar a partilha. Essa partilha que, como refiro muitas vezes, é fruto de um momento de ruptura de um silêncio de anos e décadas, de dor, sofrimento, vergonha e auto-culpabilização.

Quem tiver dúvidas ou questões, pode procurar diversas entidades que podem esclarecê-las (AMCV, UMAR, APAV, só para nomear algumas). Da parte da Quebrar o Silêncio, sugiro a leitura desta nossa página https://quebrarosilencio.pt/procuro-ajuda-para-alguem, nomeadamente a seguir à secção O que pode dizer a um homem vítima/sobrevivente de abuso sexual.