“Como é que foste abusado?”

O ser humano é naturalmente curioso e esta é uma característica que faz parte da nossa natureza. Não é por acaso que quando há acidentes na autoestrada o trânsito abranda para que a curiosidade alheia seja saciada. No entanto, quando um homem sobrevivente de abuso sexual partilha com alguém a sua história (seja família ou pessoa amiga), a curiosidade não deve gerir ou influenciar a forma como essa mesma partilha é recebida.

Como já disse noutras ocasiões, um homem que tenha sido abusado sexualmente na infância demora, em média, cerca de 26 anos até partilhar o que lhe aconteceu ou para procurar apoio. É preciso termos presente que esta partilha é um ato de coragem e de força, e que pode representar, para o sobrevivente, uma exposição imensa provocando ansiedade e um sentimento de vulnerabilidade. Por isso, é fundamental que essa partilha seja bem recebida.

Na Quebrar o Silêncio sugerimos que se diga o seguinte:

  • Obrigado por confiares em mim.
  • Acredito em ti.
  • O que posso fazer para te apoiar?
  • A culpa não foi tua.
  • Lamento que isso tenha acontecido.
  • Estou aqui para te apoiar e ajudar-te a ultrapassar isto.
  • Os teus sentimentos e pensamentos são normais.
  • Não há receitas sobre o que possas estar a sentir e pensar.

Por outro lado, recomendamos que se evite dizer:

  • Como é que alguém te pode ter feito isto?
  • Eu compreendo exatamente aquilo por que estás a passar.
  • Podia ter sido pior.
  • Tens sorte de não ter acontecido algo mais grave.
  • Não és culpado, mas devias ter tentado evitar ou fugir.
  • Tenta que isso não te afete tanto.
  • Quem foi?
  • Como é que foste abusado?

Acreditamos que reconhecer a coragem e força necessárias e agradecer a partilha é uma boa forma para começar. Dizer “o que posso fazer para te apoiar?” permite ao homem sobrevivente ter o controlo da conversa e deixar que este determine o rumo da mesma. No fundo, permite ainda que ele possa refletir sobre o que pretende da sua partilha: pode ser um desabafo, mas também pode ser um apelo para procurar um apoio mais estruturado. Mas, independentemente da resposta, é fundamental que seja o sobrevivente a decidir.

Responsabilizar e revitimizar.

Por outro lado, questões como “Quem foi?” ou “Como é que foste abusado?” podem fazer com que o sobrevivente reviva certas memórias do abuso que levem à revitimação e por isso devem ser evitadas. Afirmar ainda “devias ter tentado evitar ou fugir” responsabiliza o sobrevivente pelo abuso de que foi vítima. É essencial ter cuidado com o que dizemos a alguém que partilha a sua história de abuso.

Se o sobrevivente partilhar detalhes ou aspectos mais concretos está no seu direito, como está no seu direito de não fazê-lo. Independentemente do que diz, a partilha não deve ser de algum modo forçada. Enquanto ouvintes, devemos preocupar-nos com o seu bem-estar e aceitar a sua partilha na forma como nos é apresentada.

Más intenções?

Gostava de esclarecer que quem profere estas questões não o faz necessariamente por mal. Quem recebe uma partilha pode ser surpreendido e não ter o espaço ou o tempo necessários para refletir sobre qual será a melhor resposta. Também é preciso falarmos disso abertamente. No entanto, é fundamental, nestes momentos, protegermos o bem-estar dos e das sobreviventes, e questionarmo-nos: queremos saber os detalhes ou queremos apoiar?