A encenação da masculinidade

Se pensarmos na masculinidade como uma encenação teatral, podemos considerar as seguintes partes intervenientes: o guião, a encenação, o público e o ator principal.

Guião da masculinidade hegemónica

O guião não é novo, já foi escrito há muito tempo e a sua aplicação começa bem antes do nascimento dos rapazes e das raparigas. Ao contrário do que algumas pessoas acreditam, não é no contexto do infantário ou no primeiro ciclo que se dá a socialização das crianças e a construção dos papéis de género, mas sim quando os pais e as mães descobrem o sexo do bebé. É nessa altura que decidem qual o guião que vão adoptar, onde está tudo devidamente  descrito e com inúmeros apontamentos para reforçar a narrativa dos estereótipos de género. Antes do nascimento do rapaz, podemos encontrar nesse guião a cor do quarto, as roupas que devem ser adquiridas, os brinquedos e os primeiros ensinamentos, para que se saiba quais os comportamentos permitidos aos meninos e meninas. Não é por acaso que existem produtos como a Girlie Glue (cujo claim é “It’s never too early to be Girlie!”), para que as mães possam colar lacinhos rosa na cabeça das filhas, porque nos primeiros meses de vida não é fácil distinguir as meninas dos meninos.

Uma das características deste guião é que é inflexível e não permite improvisações que provoquem desvios ou um rompimento com o que está escrito. Tudo isto é reforçado por uma encenação para garantir o devido cumprimento das regras.

A ditadura da masculinidade

A masculinidade, tal como a feminilidade, não é obtida à nascença nem tampouco é alcançada a certa altura na vida e de modo permanente. A masculinidade, especialmente a hegemónica, requer que os rapazes e homens provem constantemente a sua virilidade, que demonstrem que estão no topo da hierarquia e que o seu estatuto de macho alfa é inabalável. Isto porque qualquer coisa menos que isso resulta num policiamento para que voltem ao caminho “correto” — não há permissão para fugas ao guião.

Esse policiamento é feito desde sempre e através de diferentes modos (uns mais subtis outros mais óbvios), por via da crítica mas também do elogio e, claro, através da discriminação e da violência. Um rapaz que não sabe jogar futebol não passa despercebido pelo policiamento que é feito aos rapazes; a ele é-lhe dito que é menos homem, que já não pertence ao grupo, “que joga à menina” ou que “é mariquinhas”. Os maiores insultos à (frágil) masculinidade hegemónica são principalmente associados à feminização e à homossexualização (como refere Isabel Ventura no seu fantástico livro “Medusa no Palácio da Justiça ou Uma História da Violação Sexual”), e porquê? Porque o domínio do feminino continua a ser visto como algo a rejeitar no comportamento dos homens, algo nocivo, algo perigoso até, e a homossexualidade é vista na mesma linha de pensamento.

Esta encenação representa a pressão social, nas suas diferentes dimensões, seja na escola, em casa ou noutro qualquer contexto onde haja interação com outras pessoas.

O público que aplaude mas que também vaia

A assistir temos os pais, as mães, familiares, colegas e todas as pessoas que de algum modo se cruzam connosco — seja por cinco minutos ou por vários anos da nossa vida. E este público é semelhante ao que assiste aos jogos de futebol (vou arriscar-me a ir por aqui), quando vemos fãs fervorosos a aplaudir um jogador que se mostra incansável e que marca pela equipa. É aplaudido por ser o maior. No entanto, se não cumpre com a sua função e falha com a expectativa, os louros mudam de registo e cessam. O público vaia e trata de deixar bem claro que falhou, não cumpriu. E no fundo, tal como a encenação, o público vai reforçando o guião, vai mantendo os rapazes e homens na “linha”, porque este público está também ele num próprio guião onde configura o papel principal.

O rapaz e o homem, o ator principal

No meio dos guiões e do policiamento, temos rapazes e raparigas que nascem numa caixa sem nunca terem pedido para pertencerem à mesma. E quem ousa fugir dessas jaulas, para referir a Chimamanda Ngozi Adichie, é fortemente policiado, é discriminado, e é vítima de violência.

Os rapazes são educados de forma limitada, desconhecem o que são sentimentos e emoções, é esperado que sejam violentos, que não respeitem as mulheres e raparigas, que sejam agressivos com os outros rapazes. São incutidos a comportarem-se desta forma porque não há outra e porque têm de mostrar que são homens. Ensinamos os rapazes a terem medo do medo (ver a talk “We should all be feminists”) e a terem medo da vulnerabilidade como se fosse a pior coisa do mundo, porque é tradicionalmente uma característica das mulheres.

Temos de permitir que os rapazes e homens possam experimentar outros papéis, sem que isso seja visto como menor ou inferior.

Reciclemos o guião da masculinidade

Este texto está batido, é velho e não traz nada de benéfico. Por isso, construamos um novo guião que viva da liberdade e valorize o improviso, que permita aos rapazes e às raparigas descobrirem qual a forma de expressão com a qual se identificam mais. Que descubram a sua voz sem que haja um policiamento, que lhes seja permitido serem quem são e que não sintam receio por pensar sequer em comportarem-se de forma diferente. Um guião que esteja em branco e que valorize a diversidade.