(Não) Estou bem, obrigado! – os pais que choram

Quando perguntamos a um homem como tem passado, qual é a normalmente a sua resposta? “Está tudo bem”. Face a isto, pergunto: será possível, para um homem, estar de outra forma? Para um homem poder não estar bem, tem de acontecer alguma calamidade — algo tão mau que ninguém poderá refutar. A morte da mãe ou do pai, uma situação extremamente complicada com a companheira (quando reflito sobre a visão da masculinidade hegemónica, os exemplos dados caem dentro do prisma heteronormativo), um problema financeiro grave ou uma doença séria.

E porquê? Porque não educamos os rapazes para desenvolver a sua inteligência emocional. O campo das emoções está fora dos limites do que lhes é permitido, porque se continua a insistir que os rapazes só têm dois modos: o normal e o agressivo. Tudo o resto é inexistente e fora de limites aceites.

As emoções e os sentimentos fazem parte do ser humano, e é saudável não só identificar e conhecer as emoções básicas, como explorar o que sentimos e exteriorizar esses mesmos sentimentos, independentemente do género da criança. Quando limitamos os rapazes no campo emocional, estamos a prejudicar o seu desenvolvimento e a sua vida, não só enquanto criança como posteriormente enquanto homem adulto. Como pode um homem dizer o que realmente sente, quando isso sempre lhe foi negado durante toda a sua vida?

Agir como um homem deve agir.

Na TedTalk “A call to men”, Tony Porter reconhece como tratava de forma diferente o filho e a filha. Porter refere que quando tinham 5 ou 6 anos (a diferença de idades é de 15 meses), quando a filha chorava “não importava por que é que estava a chorar. Podia sentar-se ao meu colo, encher-me a manga de baba e chorar, chorar à vontade. O papá está aqui. É tudo o que importa”.

No entanto, no caso do filho, Porter refere que “era como se, mal o ouvia chorar, um relógio disparasse. Dava ao rapaz uns 30 segundos, o que significava que, quando ele chegava ao pé de mim, eu já lhe perguntava coisas como: «Por que estás a chorar?», «Queixo para cima! Olha para mim», «Explica-me o que se passa», «Conta-me o que se passa, não te compreendo», «Porque estás a chorar?». Porter continua e afirma que “acabava por lhe dizer coisas como, «Vai mas é para o teu quarto!» «Vai lá, vai para o teu quarto!» «Senta-te!» «Recompõe-te» «e só venhas falar comigo quando conseguires falar como um homem.» E ele tinha cinco anos. À medida que crescia na minha vida dizia para mim mesmo: «Meu Deus, que se passa comigo? Que é que estou a fazer? Porque é que estou a fazer isto?»

De uma forma ou de outra, mais explícita ou mais subtil, esta continua a ser a mensagem que transmitimos aos rapazes logo desde início. Têm de ser fortes, têm de homens a sério. Não podem chorar, isso é para os mariquinhas, para as mulheres. Não só se continua a reforçar a ideia errada de que um homem é de ferro, como tem de ser heterosexual e a sua postura não pode, em nada, ser como a das mulheres ou ter um lado feminino. Porque quando falamos da masculinidade hegemónica, o feminino continua a ser rejeitado, numa visão extremamente misógina, maniqueísta e nefasta.

Pode um homem estar triste ou chorar?

Nas escolas, estes temas fazem parte do nosso quotidiano. Ainda recentemente um jovem de 19 anos revelou que “não podemos mostrar que estamos tristes, um rapaz não pode estar triste. Não podemos procurar um amigo e dizer que precisamos de falar”. E quando aos 19 anos este jovem já conhece esta realidade, a pressão de pares e os exemplos que ele tem não vão no sentido de garantir a segurança de que precisa para exprimir o que sente, mas sim no sentido de o policiar, de forma a que não exprima o que sente e para garantir que não vai fazê-lo.

Noutra ocasião, outro jovem afirmou com convicção que sim, os homens podem chorar, mas só se tiver acontecido algo grave como ser violado. Quando lhe perguntei: “e se um homem chorar por ter perdido as chaves?” a resposta dele foi um não convicto. Não faz sentido um homem chorar por uma coisa dessas, porque “não é um assunto sério, algo grave”. E nestes exemplos observamos a elasticidade de cada jovem, as suas crenças e também qual a liberdade que lhe és permitida. Neste último caso, havia uma clara barreira entre ser violado e perder as chaves.

Para a desconstrução destas crenças limitadoras, precisamos de exemplos, nomeadamente de homens que falem abertamente com as crianças e jovens, e lhes digam que chorar é natural e que ninguém é menos homem se o fizer. Precisamos de homens que demonstram, na prática, que há várias masculinidades e diferentes formas de expressão, e que o caminho não pode ser um de repressão. E neste ponto aproveito para fazer o devido reconhecimento: se há trabalho e muita desconstrução já feitos nesta área, temos de agradecer às mulheres feministas que, através das suas lutas e conquistas, permitiram criar um contexto favorável à discussão de masculinidades cuidadoras e não violentas. Porque, contra factos não há argumentos, e o atual espaço que nos permite discutir novas masculinidades foi um espaço conquistado pelas mulheres feministas.

Bons exemplos por parte de homens adultos.

Tony Porter recorda o seu pai. Momentos após enterrar o seu outro filho, o pai de Porter não aguentou mais e acabou por chorar à sua frente. Conseguiu aguentar apenas até que as mulheres se ausentassem, mas “falhou” por chorar em frente do próprio filho. Sobre este episódio, Porter refere “aquilo que mais me marcou em tudo isto foi o facto de ele me pedir desculpa por chorar à minha frente. Ao mesmo tempo, estava a felicitar-me, a elogiar-me, por eu não chorar.” E se o pai de Porter não estivesse preso à expectativa e pressão social do que é ser homem? Será que Porter viria a ter uma melhor relação com a sua masculinidade se não visse o choro como algo ameaçador? Teria ele conseguido lidar com o choro do próprio filho, Kendall, tratando-o de forma igual à filha?

Ser pai cuidador.

É fundamental continuarmos a refletir sobre que educação queremos dar às nossas crianças. Que valores e comportamentos queremos que as crianças, nomeadamente os rapazes, tenham quando forem adultas? Comecemos em casa, na educação em família, e pela reprodução de bons exemplos que possam servir de modelo para os rapazes e também para as raparigas. O pai que partilha irmãmente com a mãe as tarefas domésticas e trabalho não remunerado. O pai que se opõe à misoginia, ao sexismo, ao machismo, e o pai que dá bons exemplos. O pai que cuida e que está presente nas consultas médicas, nas reuniões e festas da escola, nas atividades das suas crianças e o pai que também cresce com essa educação. O pai que promove valores de aceitação e valorização da diversidade, o pai que se recusa a reproduzir estereótipos de género.

Muitos homens já gozam a licença de parentalidade bem como os dias facultativos, mas esta continua ainda a ser uma decisão mal vista no trabalho porque a visão tradicional insiste em reforçar que é a mulher que tem de cuidar do bebé. Ou continua a ser difícil para um homem ausentar-se para ir à consulta dos filhos, à reunião ou festa na escola ou a estar presente na atividade das suas crianças. “Então mas não pode ir a mãe?” Pode, mas o pai também pode, deve e quer estar presente. Precisamos de acabar de vez com a ideia de que o homem continua a ser “o pilar que sustenta a família” e a mulher é quem cuida. Ambos trabalham, ambos cuidam e todos e todas ganhamos com esta forma de educar.