O que ganham os homens com os feminismos?

Em 1914 Floyd Dell escreveu “feminism is going to make it possible for the first time for men to be free” (“o feminismo fará com que, pela primeira vez, seja possível os homens serem livres”). Em 2018, essa liberdade não só continua por chegar como continua a ser refutada, impedindo a libertação dos homens e rapazes.

Vamos por partes e esclarecer desde já alguns pressupostos:

  • Os homens podem e devem ser feministas (não vou discutir neste momento quem defende que os homens só podem ser aliados. Não neste texto.)
  • Os feminismos também trazem benefícios para os homens e rapazes.
  • Feminismo não é sinónimo de machismo ou misandria. Não confundamos os termos.

De uma forma simples, podemos dizer que o objetivo das feministas passa pela conquista de uma sociedade igualitária, na qual mulheres e homens têm os mesmos direitos e oportunidades. Nessa igualdade há benefícios para todos e todas, e se os homens também ganham com a igualdade, usemos esse facto para motivar a sua participação. Afinal de contas, os homens beneficiarão sempre com a igualdade de género. Não haja ilusões.

O que ganham mesmo os homens?

Poderíamos falar de vários aspectos que ilustram os benefícios, como por exemplo:

  • O facto de as feministas terem iniciado conversações para que os homens possam passar mais tempos com os seus filhos e filhas.
  • O reconhecimento de que os homens também são afetados pela violência doméstica e sexual. Mesmo que em menor número, estes homens sobreviventes têm hoje um reconhecimento único e o apoio que merecem devido ao trabalho feito há décadas pelas mulheres feministas.
  • Acesso aos homens em áreas profissionais e funções que eram vistas como femininas, como educação de infância e enfermagem, por exemplo.
  • O facto de os homens poderem desempenhar as tarefas e responsabilidades da casa sem sentirem que isso represente a sua emasculação.

Mesmo que ainda nos falte fazer muito em várias outras áreas e até mesmo nestes exemplos que referi acima, a verdade é que estas são algumas das conquistas que devemos às mulheres feministas e que beneficiam homens e mulheres. No entanto, e apesar de haver mais, quero focar-me um pouco numa conquista que é para mim é a base de todas: liberdade.

Tal como Dell referiu, com os feminismos os homens ganham liberdade para fugir das amarras dos estereótipos de género e das suas expetativas rígidas. E se para muitos esta pode ser uma justificação abstrata, a verdade é que sem esta liberdade não haveria permissão para os homens e rapazes fugirem ao modelo masculino que associa a violência à sua educação. E convenhamos: o modelo tradicional não está a funcionar para os rapazes e homens: a masculinidade hegemónica é uma prisão que limita o são desenvolvimento das nossas crianças e que fomenta as desigualdades e violência de género, especialmente de homens contra mulheres, mas também de homens contra outros homens. Enquanto esta liberdade não for realmente alcançada e não alimentarmos outros valores, os homens não conseguirão fugir deste registo. E se para quem acha que a ideia de desconstrução é má, então mudemos a abordagem. Construamos, então, uma identidade de masculinidade assente no cuidado, na compreensão, na empatia e na aceitação de que um homem pode chorar sem que isso seja relacionado com fraqueza e que um homem não se sinta menos homem por apresentar as suas vulnerabilidades.

Como ser um homem feminista?

Perguntei a várias feministas o que é preciso para um homem ser feminista (ou aliado do feminismo). As respostas que obtive foram no sentido de:

  • Em primeiro lugar reconhecer que o histórico de violência contra mulheres e raparigas é principalmente exercido pelos homens como mecanismo social que beneficia os mesmos em detrimento dos direitos das mulheres.
  • Participar no diálogo e na construção de uma sociedade equitativa, na qual as oportunidades sejam iguais para mulheres e homens.
  • Ter atenção à visibilidade, isto é, para um homem ser feminista ou aliado a sua participação deve ser feita em paralelo e não silenciando as próprias mulheres no processo. (pesquisar o que é mansplaining).

Em caso de dúvida, o meu conselho é perguntar a quem sabe como é possível contribuir. E escutar. Escutar, ler e informar-se antes de avançar para uma posição que não vá contra as causas feministas. E contra mim falo, que sempre fui um “fala barato”. Sempre fui trigger happy e não estou imune de um dia dar uma bela de uma calinada. Mas é uma caminhada que se faz, e tento fazê-la pela desconstrução das masculindades tóxicas.

Para terminar, e como costumo dizer, os homens feministas (e os homens em geral) precisam das mulheres feministas. Os homens não foram educados para serem sensíveis a estas matérias. Os homens vivem num universo privilegiado e é preciso também que compreendam e conheçam o outro lado dessa realidade para poderem contribuir de alguma forma. Portanto, em caso de dúvida, vamos perguntar e ouvir a resposta.

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