“Isso é mesmo coisa de gajo” – pequena reflexão sobre coisas de homem

Quando falamos da construção social do que é ser homem, é importante reconhecer que muita dessa construção e socialização é alcançada pelo reforço positivo — por exemplo, quando se elogia um rapaz porque é forte ou porque tem um comportamento dito masculino; as supostas “coisas de homem”. Estas observações, que na maioria das vezes, diria, são proferidas com boas intenções, validam e incluem-no (o rapaz ou homem) na “caixinha de género masculino”, alimentando um sentimento de pertença. E essa pertença é sedutora, convidativa, tem o seu quê de confortável, mas é uma pertença que nunca está garantida, sendo necessário trabalhar para a sua manutenção. É como se houvesse uma checklist e a cada validação que se recebemos, confirmamos que pertencemos àquele grupo, àquele perfil de homem que é valorizado socialmente e que subimos, ou mantemos a nossa posição, na hierarquia da masculinidade. E como qualquer sistema que inclui, também exclui.

Validação pelo elogio

Em tempos fui a um hipermercado. Quando ia comprar o meu champô habitual, uma promotora sugeriu-me experimentar um novo produto. Fiel àquela marca, recusei cordialmente e face a isso ouvi a seguinte resposta: “É mesmo homem. Tem o comportamento típico dos homens” (mais um ponto positivo para a checklist). Perguntei porquê e a senhora referiu-me que “os homens quando gostam de um produto são fiéis a esse mesmo produto e não o trocam por nada, ao passo que, com as mulheres, basta acenar com uma promoção, desconto ou novo produto e já o adquiriram. Estão mais dispostas para este tipo de coisas”.

Este episódio pode parecer absolutamente normal, mas será importante refletir sobre o seguinte: tivesse eu comprado o produto que me tinha sido sugerido, teria eu um comportamento menos típico dos homens? E de onde vem esse comportamento que é referido como típico? Da forma como somos educados e educadas. Não há nenhuma componente genética ou biológica que me faça ser mais ou menos fiel a um champô.

Mas há outros casos da validação e reforço. Por exemplo, um rapaz pré-adolescente não quer estudar matemática e prefere antes jogar futebol com os amigos. Tal é visto como “coisa de rapaz; eles têm uma apetência natural para os jogos”. Outro exemplo: um jovem não arruma o quarto e ouve “é típico dos rapazes; são mais desmazelados do que as raparigas”, quando na verdade, talvez ainda não tenha aprendido a arrumar o quarto ou talvez tenha tido a vida facilitada nesse departamento (não lhe sendo exigido que o fizesse por ser rapaz).

Há um conjunto de situações que parecem desculpar e legitimar certo de tipo de atitudes e comportamentos, porque como se diz em inglês boys will be boys. E estes comportamentos são valorizados e elogiados, e alimentam a tal checklist porque são coisas de homem.

Incluir e excluir

Quando estas mensagens são repetidas ad eternum ao longo de toda a vida, tornam-se difíceis de desconstruir. Num estudo (Wong, 2016) com quase 20 000 homens, foi pedido que descrevessem quais os atributos da masculinidade que valorizavam. A maioria respondeu independência e autonomia (atributos, diria eu, positivos para mulheres ou homens), no entanto, quando a definição da sua masculinidade dependia estritamente da manutenção dessa independência e autonomia, o caso já era outro. Quando esses homens necessitavam de apoio ou de procurar um serviço, a alternativa era que não podiam fazê-lo. Na sua visão, procurar apoio era visto como perda da masculinidade e do seu estatuto, e a única opção era sofrer em silêncio.

Relacionando com os casos de abuso sexual de homens e de rapazes, não é por acaso que os sobreviventes de abuso sexual demoram mais de 20 anos, e por vezes 30, 40 ou até, em certos casos, 50 anos até procurar apoio. Além de questões mais específicas que estão relacionadas com o abuso sexual, estes homens indicam que os valores tradicionais da masculinidade (ex: homem que é homem é sempre forte, não chora, sabe proteger-se e não procura ajuda) são obstáculos para que possam sentir-se capazes para procurar apoio.

A questão que coloco é a seguinte: o que ganhamos, enquanto sociedade, quando o sentimento de inclusão de alguns homens é feito à custa da exclusão de outros?

Por exemplo, se reuníssemos um grupo homens e pedíssemos para referir que atributos consideram importantes para definir o que é ser homem, iríamos obter uma lista coletiva bastante interessante. Se numa segunda fase perguntássemos quantos desses homens corresponderiam 100% àquela mesma lista, quantos na realidade iriam levantar a mão?

Se a definição “máxima” do que é ser homem é, no fundo, inalcançável, por que é que nos apegamos tanto a ela? Por que fazemos a sua manutenção e policiamos quem se desvia desse caminho? E se ninguém corresponde na prática, à ideia coletiva do que é ser homem, porque andamos a insistir que o façamos?