“Não pareces nada gay, disfarças bem!”

Por vezes ouvem-se elogios que são proferidos de forma a destacar pela positiva um homossexual discreto dos ditos efeminados. No entanto, quando se proferem elogios como “tu não pareces nada gay”, “enganas bem”, “ninguém diria”, “pareces mesmo um heterossexual” ou “deviam é ser todos como tu; não entendo porque têm de ser efeminados só porque são gays”, está-se a reproduzir estereótipos de género, nomeadamente a ideia tradicional do que é ser homem e também a ideia errada de que o gay tem de ser efeminado.

Por melhores que sejam as intenções de quem os diz, seria útil refletirmos e compreendermos o que está por trás dessas mesmas observações.

Hierarquia da masculinidade

Estes elogios assentam na ideia tradicional da masculinidade, que nos diz que “homem que é homem é heterossexual”. Nesta visão redutora, ser homossexual não só está fora do que é permitido, como também é uma ameaça à própria masculinidade. Ou seja, neste prisma da masculinidade hegemónica, ser homossexual é ser menos homem, o que alimenta atitudes e comportamentos discriminatórios contra gays.

Na hierarquia da masculinidade, os homossexuais não estão, “naturalmente”, no topo, e dentro de uma outra hierarquia exclusiva aos gays, quem está situado no topo é o dito discreto e, no fundo, o efeminado. Assim, e desta forma, os discretos podem distinguir-se dos efeminados – que supostamente dão mau nome e “má fama” à comunidade – porque os discretos são quem mais se aproxima do modelo tradicional da masculinidade, os “mais homens” desse grupo. E, por isso, terão também de proteger o seu estatuto de homossexual masculino e discreto. É um ciclo de exclusão que tem como base a propagação do modelo tradicional da masculinidade e da sua manutenção.

Esta forma simplista de sistematizar estes papéis sociais e de género acarreta uma fatura bem cara: discriminação contra gays, mas também comportamentos e atitudes discriminatórias entre homossexuais. A socialização, que reforça e reproduz masculinidades tóxicas, acaba por alimentar situações de discriminação, porque a masculinidade de alguns gays é afetada ao serem associados a uma forma de expressão que é desprezada: homens homossexuais que são efeminados. Porque, verdade seja dita, numa visão binária e redutora, para muitos homens a mulher continua ser o sexo fraco e qualquer homem que seja efeminado está no espectro oposto ao macho alfa. A importância da desconstrução dos estereótipos de género passa por aqui também, para que nem mulheres nem os homens que não se expressam de acordo com os ideais tradicionais da masculinidade sejam vistos como inferiores.

União e não discriminação

É preciso desconstruir estas crenças, para que cada homem e mulher possa comportar-se como deseja e lhe é mais natural, sem que seja alvo de discriminação. É urgente pararmos de alimentar valores tóxicos de masculinidade, que estão na base da violência de género e do policiamento da masculinidade, e optarmos por um caminho que traga a união contra esse mesmo sistema. Ou seja, em vez de termos homens a policiar outros homens porque ousam fugir do caminho estrito da masculinidade hegemónica, e gays a discriminarem outros gays, temos de construir uma união contra o sistema que reproduz a tal visão limitante do que significa ser homem.

No fundo, todas as pessoas são prejudicadas pelo sistema que reforça o machismo (mesmo que o histórico de violência contra mulheres e raparigas seja principalmente exercido pelos homens como mecanismo social que beneficia os mesmos). No entanto, este mesmo mecanismo social também prejudica os homens, limitando o seu desenvolvimento e educação. É preciso parar esta máquina e refletir sobre os seus malefícios para os retirarmos da socialização dos homens e mulheres. Em vez de se continuar a reproduzir uma estrutura que vira homens contra homens e homens contra mulheres, temos de nos unir contra este mesmo sistema. Se um sistema prejudica mais do que beneficia, porque continuamos a insistir na sua manutenção?