“Um rapaz não pode estar triste.”

Numa das sessões de sensibilização que faço, um jovem de 19 anos referiu que “não podemos mostrar que estamos tristes, um rapaz não pode estar triste. Não podemos procurar um amigo e dizer que precisamos de falar.” As suas palavras foram proferidas num tom de pesar, num reconhecimento de uma verdade que não pode ser assumida. Quase como um desabafo que demorou tempo a sair. Talvez por tentarmos criar um espaço seguro nas sessões escolares, onde eles e elas possam participar livremente, conseguimos criar as condições para que os e as jovens nos digam o que realmente pensam. Não quero soar arrogante (as nossas sessões têm 90 minutos e conheço bem as limitações das mesmas). Quero apenas reforçar a ideia de que é fundamental dialogar com a juventude, ouvir o que tem para nos dizer e criar condições para que este diálogo seja feito sem juízos de valor e que possa ser construtivo.

Se a socialização dos jovens, seja na escola, em casa ou noutro local, reforça os estereótipos de género sem dar margem para fugir desses mesmos papéis, então resta-nos a nós, adultos, contribuir para uma reflexão que os vai libertar. Enquanto adultos, já passámos pela adolescência, a pressão de pares e outros “mecanismos” que servem para policiar e nos colocar numa caixa. Por isso temos a responsabilidade de interagir com os e as jovens para refletirmos em conjunto sobre como estes rígidos papéis podem e limitam o nosso desenvolvimento.

Do trabalho que desenvolvo nas escolas, observo que faltam exemplos positivos de masculinidades que os rapazes possam ter como referência. É fundamental desconstruir os estereótipos de género, fazendo perceber como estes prejudicam o nosso bem-estar. Assistir a um jovem a reconhecer que não tem com quem falar se estiver triste, porque nem sequer pode demonstrar a sua tristeza é um alerta.

Por vezes, nas nossas sessões, desenhamos uma linha onde colocamos as motivos, de forma hierárquica, pelos quais um rapaz pode chorar. Normalmente, eventos reconhecidos como graves, como ser violado ou a morte dos pais, permitem o choro, mas perder as chaves ou o autocarro, já não. “Chorar pela perda das chaves já não é coisa de homem”, mas é permitido se for uma mulher. Por continuamos a reproduzir os nefastos estereótipos de género desde o início da sua socialização, temos de parar e refletir sobre essa reprodução. E com cada turma compreendemos como cada jovem, como cada pessoa adulta, tem as suas crenças e nelas estão definidos os limites do que é possível ou não fazer, os limites do seu próprio comportamento.

Quando um homem adulto, reconhece e fala abertamente com jovens rapazes sobre as suas emoções, limites, expetativas e tantos outros temas, pode criar momentos de reflexão. Não vai, naquele momento, derrubar os estereótipos de género, mas pode iniciar um processo que leve à sua desconstrução. E esta desconstrução é fundamental e já tarda, tanto para os homens adultos, como os jovens rapazes.

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