Ser homem: e se não tivéssemos de provar nada a ninguém?

Quando vivia no Reino Unido, conheci o Mark. Ele tinha 42 anos, era super bem-disposto, descontraído, inteligente e bem sucedido na vida. Tinha, no entanto, uma “nódoa” no “currículo”: o seu casamento ruíra porque deixara de conseguir sustentar a família.

Muito antes do divórcio, o Mark trabalhava, tinha um bom vencimento, mas a empresa faliu e deixou, por isso, de contribuir financeiramente para a família. E isso afetou-o. Afetou-o inesperadamente e bem mais do que alguma vez pudesse prever.

Quando o conheci, conversava abertamente sobre o que tinha acontecido; olhava para trás e conseguia ver as coisas com clareza. Mas na altura do desemprego, explicara-me que se sentia menos capaz, menos homem. Sentia-se diminuído não só por estar a falhar financeiramente para com a família, mas também por não cumprir com o papel tradicional de marido. Já nessa altura, Mark acreditava que ser homem não passava forçosamente pela capacidade de sustentar a família, que isso não o definia, mas para sua surpresa estar desempregado acabou por afetá-lo de formas que jamais imaginara. A sua incapacidade de lidar com essa situação, aliada a outras questões, levou-o ao divórcio.

O Mark não é o único homem nesta e noutras situações semelhantes. Numa visão tradicional, e tendo em conta os valores tóxicos da masculinidade hegemónica, ser homem não é algo com que se nasce e não é um bem adquirido que nos é entregue à nascença. Nem é tampouco algo que se conquiste uma única vez e seja nosso para todo o sempre. Ser homem e provar que se é homem, é um desafio constante, e é parte integral da socialização. Todos os dias há momentos de prova e de reforço dessa masculinidade e o devido policiamento da mesma.

O que ganhamos nós com a pressão social para sermos homens?

Nada. A pressão em corresponder a um papel de masculinidade que é inalcançável, provoca frustração em vários homens, que pode ser (e muitas vezes é) canalizada para a violência. Violência esta exercida principalmente contra mulheres e raparigas, mas também contra outros homens e rapazes. Exemplo disso é quando a progressão profissional das mulheres, nomeadamente quando alimenta a rara equidade financeira (em 2015 as mulheres portuguesas recebiam em média menos 17,8%, do que os homens), representa uma ameaça ao papel tradicional do homem. Qual é o resultado? Assédio moral e sexual no trabalho. Tal como é referido no artigo When Male Unemployment Rates Rise, So Do Sexual Harassment Claims, os homens respondem com assédio sexual quando sentem a sua masculinidade ameaçada no emprego.

Fora do local de trabalho, o cenário é ainda mais complexo. Os desafios colocados aos homens sobre a sua masculinidade, desafios esses diários e muitas vezes incessantes, podem promover sentimentos de perda da identidade masculina — sentimento esse que pode ser gerado por diversas formas de opressão social, como discriminação racial, social, de classe, de género, etc. Esta necessidade de ter de provar continuamente a sua masculinidade pode levar à promoção de fatores de risco que levam à violência na intimidade, de género, doméstica e sexual, como resposta para compensar a perda da masculinidade. E mais uma vez pergunto: o que ganhamos nós com a pressão social para sermos homens?

Policiamento da masculinidade e o bullying nas escolas

Como refere Kathleen C. Basile, os homens e rapazes são os principais agressores, mas também os principais afetados. E quem são as vítimas? São jovens que fogem das “caixinhas de género” e que se apresentam fora do espectro binário de género; são gays, lésbicas, bisexuais, jovens trans ou qualquer jovem que não se identifique com o binarismo. Mas não só: crianças e jovens com deficiência e com situação de vulnerabilidade estão mais expostas ao bullying. Susana Fonseca, professora no ISCTE e investigadora envolvida no projecto Stop Disabuse, refere num artigo do Público que “um em cada cinco alunos está diretamente envolvido em situações de bullying” e que “acontece em todas [as escolas] e com uma frequência quase diária”. E as masculinidades tóxicas estão na base desta forma de violência. Não são o único factor, mas na base está o desejo do agressor de provar o poder que tem sobre a vítima e o bullying é umas das formas de policiar a masculinidade hegemónica e forçar à conformidade das regras e dos estereótipos de género. E como um disco riscado insisto: o que ganhamos nós com a pressão social para sermos homens?

É por isso que reforço a necessidade de mudarmos a forma como educamos os rapazes. Porque nascer homem não é a causa da violência, mas sim a forma como socializamos e associamos o masculino à violência. Se ensinarmos os rapazes que não têm de provar a sua masculinidade, estamos a libertá-los de uma pressão social vitalícia. Essa pressão nem sequer tem de entrar na matriz da sua educação. Podemos ensiná-los simplesmente a serem quem são e a aceitarem a riqueza que há na diversidade. Chegou a altura de abandonarmos as amarras das caixas de género que tanto limitam e de descartamos o que nos faz mal. E com isso ganhamos todos e todas. Não há qualquer dúvida nisso.

 

 

Nota: Mark não é o nome verdadeiro para proteger a identidade deste meu amigo.