Homens abusados sexualmente? Como?

Nem toda a gente acredita que os homens e rapazes possam ser abusados sexualmente. É esta a verdade. Quando confrontados com esta realidade, observo sobrancelhas franzidas, expressões de dúvida, descrença e até gargalhadas (umas por nervosismo pueril, outras por pura troça). “Mas o que é que este está para aqui a dizer? Homens abusados? Mas como? Só pode estar a gozar.”

Muita gente pergunta-me logo pelo lado “maquinal” e técnico do abuso. “Como pode uma mulher abusar de um homem? Ele não precisa de estar ereto? Se está ereto é porque quer, não é?” Estas são algumas das questões que mais oiço.

Como este é um tema pouco debatido, além de ignorarem que 1 em cada 6 homens é vítima de abuso, ignoram também que na maioria destes casos o abusador é um homem. E ignoram também que nem todo o abuso implica penetração ou violação. A ideia de que para constituir abuso sexual tem de haver penetração e violação é errada, e muitas vezes esse preconceito acaba por silenciar os e as sobreviventes exatamente porque não houve penetração. Estes homens e mulheres entendem que perderam a legitimidade para procurar apoio.

É preciso reconhecer e compreender que há diversas formas de violência e abuso sexual, e que estes não se restringem à penetração. Mas esta é outra conversa. Por agora, quero focar-me em como os casos de abuso sexual de homens e rapazes são recebidos.

Realidade do abuso e o caminho por fazer
A realidade é esta: a violência e o abuso sexual afetam principalmente as mulheres e raparigas. No entanto, também há uma outra faceta desta mesma realidade: a invisibilidade e a descrença no que toca ao abuso sexual de homens e rapazes. E se uma 1 em cada 3 mulheres é vítima de abuso sexual, 1 em cada 6 homens também o é.

Felizmente, o trabalho que as mulheres feministas têm feito na área do apoio à vítima, direitos humanos, mais concretamente nos direitos das mulheres, ajudou a criar um contexto para aceitar melhor a ideia das mulheres sobreviventes. No caso dos homens, há uma longa caminhada a fazer. Não do zero, porque as nossas parceiras já nos desbravaram imenso terreno. Ainda esta semana, o novo Plano de Ação Para a Prevenção e o Combate à Violência Contra as Mulheres e à Violência Doméstica (PAVMVD) inclui a “intervenção junto de homens vítimas de VD e de violência e abuso sexual”, o que é um reconhecimento para mim histórico. Mas ainda assim há muito por fazer.

Realidade invisível e silenciada
O abuso sexual de homens e rapazes acaba por ser uma realidade invisível e silenciada. E quando um sobrevivente quebra o silêncio, é normalmente recebido com descrença, troça e até discriminação. Porque, e como dizia no início: nem toda a gente acredita que os homens e rapazes possam ser abusados sexualmente. É esta a verdade.

Os casos de abuso sexual de rapazes nem sempre são vistos como crime, são muitas vezes mal diagnosticados no contexto da saúde ou passam mesmo despercebidos. Temos casos de homens que chegam até à Quebrar o Silêncio porque procuraram um psicólogo e este disse que é perfeitamente natural haver “exploração do corpo” na adolescência (quando se tratava de abuso sexual), médicos que dizem “agora já não há nada a fazer, tem é de seguir em frente, esquecer isso”, desvalorizando completamente a partilha. Claro que isto acontece também com as mulheres sobreviventes e não quero com isto dizer que todos e todas as profissionais destas áreas se comportam do mesmo modo. Mas a verdade é que os sobreviventes nem sempre são bem recebidos quando partilham a sua história nestes contextos.

Nas escolas, encontro jovens com especial interesse nestes temas, em parte porque é novidade para elas e eles, mas encontro também muitos preconceitos e desinformação quando apresentam as suas questões e dúvidas. E porquê? Porque não debatemos estes temas o suficiente.

As famílias não têm conhecimento destes assuntos e quando são abordados lá em casa reina o desconhecimento, o preconceito e os estereótipos. Ignoram que na maioria dos casos o abusador conhece a vítima, que muitas vezes são casos de incesto e desconhecem o processo de manipulação e sedução do abusador. Muita gente crê que só as raparigas podem ser abusadas sexualmente (e que, ainda assim, por termos uma cultura de responsabilização das vítimas bem enraizada, elas são de alguma forma culpadas pelo abuso) e rejeitam a hipótese de um rapaz poder passar por uma situação semelhante. Com este contexto como podemos esperar que um rapaz se sinta seguro para partilhar que foi abusado? E vai partilhar com quem?

Famílias e o silenciamento
São poucos os casos em que as crianças partilham que estão a ser ou que foram abusadas sexualmente. Mas por vezes a família tem conhecimento deste caso porque a criança partilhou ou porque alguém próximo, por ter conhecimento do abuso, denunciou por ela. No entanto, há famílias que, com medo e vergonha de que tal possa vir a ser conhecido pelo bairro, escola, comunidade, etc., acabam por silenciar o caso. Outras, julgando que o abuso foi pontual (outro mito; normalmente o abuso é continuado), acabam por tentar gerir o caso no seio da família. Noutros casos, há relatos de mães e pais que exigem ao rapaz, vítima de abuso sexual, provas concretas e irrefutáveis desse mesmo abuso, desacreditando por completo a sua palavra. Também há casos em que, após a partilha, os pais e mães esperam que os rapazes compensem a sua masculinidade, e inscrevem-nos em atividades tipicamente associadas à masculinidade tradicional (como por exemplo futebol ou artes marciais), porque acreditam que o abuso os possa ter tornado menos homens. Também temos casos em que os pais e mães dizem que é tudo mentira e uma invenção da criança.

Não quero com isto demonizar as famílias ou os pais e mães que gerem de forma desadequada a partilha que o seu filho faz sobre ter sido abusado sexualmente. Esta é uma informação que muitas vezes nem está na lista de situações que esperamos que uma criança partilhe connosco, mas que tem de começar a estar. Do mesmo modo que podemos pensar que o rapaz pode estar a ser vítima de bullying na escola por várias razões, esta realidade precisa de estar presente também na mente dos pais e mães.

De uma forma geral, gosto de acreditar que quem tem filhos faz o melhor que pode com o que sabe e com as condições que tem. E parto sempre desse pressuposto quando nos procuram com questões e dúvidas sobre abuso sexual infantil. Mas é preciso atualizar os seus referenciais e é preciso estarem preparados para receber corretamente este tipo de partilha.

Vergonha, culpa e o silêncio
Um rapaz que seja abusado na infância demora, em média, 26 anos até procurar apoio ou partilhar com alguém que foi abusado. No entanto, há casos de homens em que este período de silêncio chega a atingir 30, 40, 50 ou até mesmo 60 anos. São décadas a sofrer com as consequências e com o impacto do abuso na sua vida. São homens que carregam fortes sentimentos de vergonha e de culpa, acreditando serem responsáveis pelo abuso. São homens com baixa auto-estima (para não dizer nenhuma), com alto sentimento de autodesvalorização, ansiedade elevada que os impede de funcionar no seu quotidiano, hipervigilantes, com PSPT, pensamentos suicidas, por vezes com consumos abusivos de álcool e drogas, investimento em relações abusivas… Estas são algumas das consequências. Não todas.

É fundamental que o caminho seja o de reconhecimento desta realidade. E que o riso nervoso e as perguntas, que apenas revitimizam, sejam substituídas por ouvir os sobreviventes, validar a sua partilha e agradecer pelo facto de confiarem em nós o suficiente para “deixar fugir” algo que foi mantido em segredo durante décadas. É essencial que nos lembremos que estamos a falar de pessoas que passaram décadas a sofrer em silêncio e que esse sofrimento não é motivo de troça. Porque enquanto se continuar a não acreditar que os homens e rapazes também podem ser abusados sexualmente, aqueles 26 anos não irão começar a diminuir.