A socialização e o policiamento da masculinidade tóxica

Temos de mudar a forma como educamos os rapazes. Urgentemente. Nascer homem não é causador de violência, mas a forma como socializamos os rapazes é. Não é por se nascer biologicamente homem que se é naturalmente violento ou se tem uma inclinação natural para a violência; da mesma forma que nascer biologicamente mulher não garante competências intrínsecas para o cuidar de crianças. Por isso, temos de reformular o modo como educamos os rapazes e as raparigas.

Papéis de género e violência

A socialização dos rapazes é feita através de uma longa equação que reforça os papéis de género,valoriza a violência e promove a desigualdade entre homens e mulheres. A verdade é que as normas sociais que regem a identidade masculina estão associadas à violência, ao encorajamento da mesma e à sua manutenção, muitas vezes com o próprio policiamento a ser feito tanto pelos pares como por quem educa.

Por ser um processo de socialização, corresponder aos padrões tradicionais da masculinidade é algo que é contínuo, ou seja, não é uma conquista que se alcance uma vez na vida e da qual depois possamos descansar. Os rapazes e os homens têm de reforçar e provar constantemente que correspondem a estas normas; faz parte do seu dia-a-dia e está presente em diversos círculos da sua socialização, seja em casa, na família, no trabalho, na escola, no namoro, no casamento ou em qualquer outro ambiente. Este processo de se tornar e ser homem nunca está finalizado. É preciso provar que se corresponde a todos os itens da caixa de género do homem e para isso temos também um eficiente policiamento como referi acima. Numa das sessões de sensibilização em escolas realizadas pela Quebrar o Silêncio, um jovem disse-me: “eu nunca pude chorar. Sempre que chorava o meu pai batia-me. Chorar era para os fracos, para os maricas”. Chorar está fora da norma masculina, da imagem tradicional do que significa ser homem — esta é uma característica feminina, e de acordo com os valores tradicionais misóginos do patriarcado é algo mau e a evitar. Portanto os rapazes têm de ser fortes, não podem chorar e devem discriminar e controlar quem o faz. E reforço o que disse anteriormente: eles próprios têm de policiar os ditos fracos, os que são menos capazes e fazer a manutenção da própria socialização que os limita.

Limitamos o desenvolvimento saudável dos rapazes

Estamos a limitar emocionalmente os rapazes ao dizer-lhes que não podem falar das suas emoções e dos seus sentimentos, que isso está fora do que lhes é esperado. Aos rapazes parecem ser permitidos apenas dois estados: neutro ou agressivo/violento. É esta a liberdade binária da masculinidade tradicional e os rapazes só podem agir dentro deste limitado espectro. Quem ousar sair fora desta caixa é menos homem, é identificado como tal e é julgado e tratado como tal. E como Chimamanda Ngozi Adichie refere na sua famosa Ted Talk, estamos a prestar “um mau serviço aos rapazes com a forma como os educamos, reprimimos a humanidade dos rapazes. Definimos masculinidade de forma muito limitada. A masculinidade torna-se uma jaula rígida e pequena. Colocamos os rapazes dentro dessa jaula. Ensinamos os rapazes a terem medo do medo. Ensinamos os rapazes a terem medo da fraqueza, da vulnerabilidade”. E se há coisa que um rapaz não pode nunca, mas nunca fazer é mostrar vulnerabilidade. Isso é para os fracos, os menos homens, é isto que lhes ensinamos.

Nesta socialização não é possível “baixar a guarda”. Apesar de ninguém corresponder realmente  ao papel tradicional do que significa ser homem, todos têm de mostrar e provar que sim. Esta expetativa irrealista e injusta alimenta a desigualdade e violência, violência esta que é exercida principalmente pelos homens contra as mulheres e raparigas, mas também contra outros homens. E é preciso pararmos e questionar: para que nos serve este modelo de educação e socialização? No prisma do trabalho para alcançar uma sociedade igualitária, o que ganhamos com esta socialização?

Educar para a igualdade

Sei que por vezes me repito e posso reforçar a mesma mensagem vezes sem conta, mas a verdade é que enquanto a igualdade de direitos e oportunidades não for a realidade, é necessário fazê-lo. Por isso, vamos refletir e compreender que as normas da masculinidade e feminilidade tradicionais estão presentes em toda a vida das crianças, mesmo antes destas nasceram. A identidade de género começa no momento em que os pais e mães têm conhecimento do sexo da criança e preparam a sua vinda. Não é nas escolas ou quando as crianças têm contacto com outras crianças que começa, é muito antes, antes do seu próprio nascimento. Portanto, deixemos de educar os rapazes e raparigas com ideias estanques sobre papéis de género (isto para não dizer que devíamos ponderar em abolir esses mesmos papéis). Eduquemos para que deixe de haver uma simbologia de acordo com o género, e retiremos do nosso vocabulário ideias como “isso é brincadeira de menina” ou “este espaço não é para rapazes”. São representações que limitam o desenvolvimento saudável deles e delas. Paremos de incutir e reforçar a violência na socialização dos rapazes e paremos de limitar o que as raparigas podem ou não fazer, comparando sempre a sua ação e liberdade ao modelo masculino — a socialização deles e especialmente delas não tem de ser masculina, nem esta tem de ser a referência base.

Eduquemos para a igualdade e paremos de reforçar o poder e o sistema patriarcal. Eduquemos para que tanto eles como elas sintam que podem exprimir livremente e que podem explorar a sua liberdade de igual forma. Se não começarmos agora, quando?