As “más feministas” ou a avaliação misógina

Basta ler alguns comentários nas redes sociais para perceber um pouco as diferentes reações alérgicas que a palavra feminista provoca. Eis alguns exemplos, onde substituí o nome a quem eram dirigidos por XYZ:

  • “Esta XYZ, tem certamente um trauma crónico. Aposto que foi trocada por outra, por parte dos homens que ambicionava ter. Entende-se assim a enorme frustração pessoal que carrega nos ombros.”
  • “A XYZ é especialista em afugentar homens dada a fronha e respectivo feminismo agudo.”
  • “Arranja um macho para te satisfazer.”
  • “Esta gaja é uma mal comida.”
  • “Com uma cara dessas devias ter sido abortada.”
  • “Vai pastar vacas ó monte de merda. Deves ter os entrefolhos todos assados de te esfregares nos tapetes.”
  • “Igualdade de género = mulheres que querem ser homens.”
  • “Li o teu artigo e fiquei com vontade de ir abusar meninas para o parque.”
  • “Precisava era de oito gajos para a violar.”
  • “Agora, os homens que vão a discotecas ou restaurantes, vão começar a ter de ir ao WC em grupo…para serem testemunhas uns dos outros de que nenhum disse algum piropo ou assediou alguma mulher!”

É preciso reforçar que quando falamos de feminismo falamos de direitos humanos, e nunca podemos perder de vista esta dimensão. Não estamos a falar de “guerrinhas” de gente desocupada, mas sim de direitos humanos e, seguindo esse prisma, convém lembrar e reconhecer que foram as mulheres feministas que puseram na agenda política as questões da igualdade e que essa igualdade beneficia homens e mulheres. Este tipo de comentários não têm como objetivo estabelecer um diálogo ou uma crítica construtiva. São a prova de como a misoginia e o patriarcado continuam bem vivos e a minar os direitos humanos. Como Ellen Page refere: “não é óbvio que vivemos num mundo patriarcal quando o feminismo continua a ser uma palavra má?”

Feministas zangadas vs feministas perfeitas

Se por um lado temos a visão das feministas zangadas e histéricas que odeiam homens, responsáveis pela alta taxa de divórcios e baixa natalidade, por outro temos a ideia das feministas perfeitas — mulheres cujo comportamento e postura têm de ser imaculados e para as quais não há margem para erro. Isto é especialmente evidente no caso das feministas com maior visibilidade.

Roxane Gay identifica-se como má feminista, e a própria afirma que: “como feminista eu sinto muita pressão. Temos a tendência de colocar num pedestal as feministas com visibilidade. Esperamos que elas tenham um comportamento perfeito. Quando elas nos desiludem, retiramo-las alegremente do pedestal onde as colocámos. (…) Há demasiadas mulheres, particularmente mulheres inovadoras e líderes da indústria, que têm medo de ser rotuladas de feministas. Têm medo de se levantar e dizer: «Sim, sou feminista» com receio do que esse rótulo significa, com receio de serem incapazes de viver segundo essas expetativas irrealistas.”

E no campo dos comentários misóginos e desonestos das redes sociais, parece que há apenas dois papéis para as feministas: ou são as más da fita ou as perfeitas que jamais poderão errar.  Cá em Portugal, quando falamos de feministas com visibilidade recordo-me das reações empolgadas à Fernanda Câncio, Paula Cosme Pinto, Carla Macedo ou Rita Ferro Rodrigues. Para muitos, estas mulheres representam as diferentes faces do feminismo numa única pessoa — do mau feminismo, digamos assim. São más feministas porque não se focam nas “verdadeiras” questões, aquelas que são centrais e fundamentais; também são más feministas porque são frustradas da vida e passam o tempo a chatear os homens. Mas para outras pessoas, não são sequer feministas porque procuram visibilidade e protagonismo. Estas são apenas algumas das reações que podem ser lidas num “bom dia”.

Que legado do feminismo deixamos às jovens?

Ignorando as observações misóginas, que grande parte das vezes são intelectualmente desonestas, pergunto: que espaço existe para as raparigas se relacionarem com os feminismos? Neste sistema binário, polarizado e fundamentalmente bélico, que valores do feminismo podemos esperar que lhes sejam passados? Como poderão relacionar-se com um feminismo sem que seja manchado por esta aversão, direi eu, quase generalizada? Poderão as raparigas desde cedo ter um contacto positivo e saudável com os feminismos? E os rapazes? Neste contexto, o que podemos esperar dos rapazes?

Se esta alergia e reações incendiárias têm imenso destaque, como podemos esperar que eles e elas pensem em feminismos de forma neutra ou positiva?

Relembro o que disse acima, no início do texto: é preciso reforçar que quando falamos de feminismo falamos de direitos humanos e nunca podemos perder de vista esta dimensão. Como também não podemos esquecer que foram as mulheres feministas que puseram na agenda política as questões da igualdade, e que essa igualdade beneficia homens e mulheres.

Portanto, enquanto houver reações alérgicas significa que a misoginia e o patriarcado continuam bem presentes. Não nos esqueçamos disso.