Deverão os homens “ajudar” lá em casa?

Os indicadores-chave de 2017 sobre Igualdade de Género em Portugal indicam que “em média, as mulheres trabalham, em casa, mais 1 hora e 45 minutos por dia do que os homens.” Feitas as contas, “são quase onze horas por semana e mais de 40 por mês” como refere Paula Cosme Pinto neste artigo.

Falamos de 40 horas mensais em que as mulheres dedicam o seu tempo ao trabalho não remunerado, enquanto os homens… O que fazem os homens durante esse tempo? Deixam que as mulheres façam aquilo que elas são “naturalmente” melhores a fazer? Ou “ajudam” em pequenas coisas? Seja lá o que fazem, a verdade é que continua a haver uma profunda desigualdade na divisão deste tipo de responsabilidades.

É cada vez mais claro que as tarefas domésticas (com ou sem filhos) têm de ser partilhadas.  E não, os homens não têm de ajudar as mulheres. Não é uma questão de ajudar, porque isso pressupõe que a obrigação é delas e o que os homens são tão bonzinhos que até as ajudam. Não é disso que se trata. Trata-se de uma partilha equilibrada e justa das tarefas entre homens e mulheres.

Educação para o privilégio

Mas que para haja mudança, também é preciso falar abertamente de algumas questões, nomeadamente se os homens quererão de facto perder o privilégio da “boa vida”.

Tomemos o exemplo de um casal com um filho e uma filha, a dita família tradicional.  Depois da refeição, o filho pode levantar-se da mesa e ir brincar. Ele não tem sequer de levantar o seu prato, dado que isso não é uma tarefa sua. Mas o mesmo já não aconteceu com a sua irmã. Depois de comer, ela tem de ajudar a mãe. Levanta o prato do irmão e o seu também. Se durante o dia o rapaz tem fome e não tem a mãe para lhe fazer uma sandes (porque a mãe, tal como o pai, está no trabalho) pede à avó para fazer; e quando esta não pode, é a irmã que a faz.

Por vezes, quando a mãe não está em casa e não pode fazer o jantar do filho, deixa tudo preparado para que ele só precise de o aquecer no microondas. Se a irmã ficar em casa, então ela já pode cozinhar uma refeição completa para os dois. Quem é que não reconhece estes ou outros cenários semelhantes?

A mãe e o pai foram educados assim: as mulheres, além de trabalharem, também têm de garantir, sem falhas, a educação dos filhos e ao mesmo tempo manter a casa perfeitamente imaculada — e acabam por transmitir estes papéis à filha e ao filho. Assim, o rapaz cresce a acreditar que não tem de fazer nada, pois a comida aparece na mesa, os pratos levantam-se sozinhos, lavam-se magicamente, arrumam-se por eles próprios no lugar, tudo enquanto ele desfruta do seu tempo livremente, brinca no tablet, joga com os amigos, etc. E cresce com a ideia de que não tem de fazer as coisas que são básicas, como tratar da sua própria alimentação.

É “natural” que ao longo de vários anos e décadas de educação neste sentido, quando este rapaz (e aqui falo num prisma de homem cisgénero heterossexual) se tornar num homem e casar, que deseje que esta lógica continue. Afinal de contas, foi sempre esta a sua realidade. Ele lá terá de ir trabalhar, mas depois, em casa, a comida terá de surgir como que por magia, como sempre foi.

Só para esclarecer: é claro que estou a ironizar, simplificar e até a exagerar em alguns pontos, mas este é um dos aspetos inerentes ao privilégio. O privilégio de que, por ser homem, as coisas aparecem feitas e não temos de fazer nada para que isso aconteça, porque é a “ordem natural” das coisas. O privilégio que tem uma característica invisível, ou seja, quem usufrui dele nem sempre se apercebe ou reconhece os frutos desse mesmo privilégio.

Educação para a igualdade

E como é que desconstruimos isto? Não há uma fórmula mágica, 100% funcional. Mas sei que a educação tem um papel fundamental. Educar as nossas crianças, logo desde cedo, para uma partilha equilibrada e justa das tarefas domésticas é um exemplo. Porque a casa é de quem habita nela, seja homem ou mulher, e saber cozinhar é uma competência fantástica para não passar fome e fundamental à nossa sobrevivência. Então por que não ensinar os rapazes a cozinhar como ensinamos às raparigas? Se numa refeição é a irmã que contribui para limpar a cozinha, na refeição seguinte é o irmão. Ou então, podem fazê-los os dois simultaneamente. Talvez assim o façam em menos tempo e ficam ambos com mais tempo livre.

No fundo, o que se pretende é que desde crianças elas aprendam, e através de exemplos positivos, que se deve colaborar e que uma das partes não deve ser prejudicada em benefício da outra.

Porque, verdade seja dita, quando dizemos que as tarefas têm de ser partilhadas estamos a dizer aos homens, que passam uma hora e tal por dia sem se dedicar às tarefas domésticas, que vão ter de perder (e perder aqui é a palavra-chave) o seu tempo livre e começar a contribuir. Agora, para um homem ou outra qualquer pessoa que usufrui de uma posição privilegiada, isto é um ataque à sua liberdade e que para si pode não ter lógica alguma. Por isso, com uma educação assente na igualdade, talvez os rapazes no futuro estejam mais disponíveis para uma real partilha de tarefas e talvez noções como o privilégio deixem de ser tão centrais. Se educarmos rapazes e raparigas com os mesmos princípios de igual responsabilização das suas tarefas, talvez estejamos a contribuir um pouco para a mudança que tanto lutamos por.