O silêncio das vítimas.

Que silêncio é este quando falamos do silêncio das vítimas? De que silêncio falamos quando referimos que os homens sobreviventes de abuso sexual demoram mais de 20 anos até procurar apoio, até partilharem com alguém em quem confiam e  amam que foram abusados sexualmente?

Por não debatermos estes assuntos o suficiente, talvez seja difícil para algumas pessoas compreender como é a vida de um sobrevivente – alguém para quem o dia-a-dia é uma batalha e uma batalha que pode passar despercebida aos olhos dos demais.

O silêncio das vítimas é um silêncio corrosivo, que destrói e que mata aos poucos. É um silêncio asfixiante, que sufoca e que impede de respirar. É um silêncio no qual a vergonha reina e a auto-culpabilização é a regra que gere o quotidiano e que impede os sobreviventes de terem uma vida funcional. Para muitos sobreviventes de abuso sexual, ir ao supermercado pode ser um desafio paralisante, a concentração no trabalho pode ser um feito impossível, envolver-se intimamente com alguém é arriscado e perigoso.

É um silêncio que destrói a auto-estima, que obriga ao uso constante de uma máscara para não desvendar a dor, para mostrar que está tudo bem e que não se passa nada, que não há evidência alguma de um sofrimento que todos os dias afoga.

É um silêncio que impede os homens de falar, de partilhar a sua vulnerabilidade e que veta qualquer apelo ao apoio. É um silêncio que é reforçado, alimentado e solidificado pela sociedade que aponta o dedo às vítimas, que as responsabiliza pela dor, pelo abuso. Uma sociedade que acusa a vítima sem demonstrar empatia e compreensão.

É o silêncio que empurra para a beira do precipício. É um silêncio no qual os pensamentos de suicídio não cessam e que surgem a cada momento “oportuno”. É o silêncio que sussurra ao ouvido e repete incessantemente que o sobrevivente não tem valor e não merece relações saudáveis.

Homem ou mulher, ninguém merece viver num silêncio destes. Enquanto sociedade, temos de ser capazes de garantir um contexto onde cada sobrevivente de abuso sexual sinta que pode partilhar a sua história, sem medo de ser julgado, e que pode procurar apoio sem que seja descredibilizado ou revitimizado.