Sim, os homens (também) são vítimas de abuso sexual.

Este mês a 1in6 publicou um vídeo de sensibilização em que algumas mulheres são convidadas a ler testemunhos de sobreviventes de violência sexual e no final lhes é perguntado o que diriam a quem escreveu os testemunhos. Nas suas respostas, as convidadas referem-se às vítimas no feminino, julgando que se trata de raparigas ou mulheres. E isto é normal. É normal porque a realidade nos diz que 1 em cada 3 mulheres são vítimas de abuso sexual antes dos 18 anos e que esta forma de violência afeta principalmente mulheres e raparigas. No entanto, é preciso reconhecer que a mesma realidade também nos diz que 1 em cada 6 homens é abusado sexualmente antes dos 18 anos. É um facto surpreendente para muitas pessoas, falemos de sobreviventes mulheres ou de sobreviventes homens.

O trabalho que tem sido feito pelas mulheres feministas no apoio à vítima foi e continua a ser fundamental para que as mulheres sobreviventes possam falar e procurar apoio. Cada vez há mais e melhores respostas e serviços dedicados para receber estas mulheres. E ainda bem que os há. Todavia, sobre a consciencialização de que os homens também são abusados sexualmente, ainda há muito trabalho a fazer. Enquanto sociedade, temos de reconhecer que o abuso sexual também afeta homens e rapazes, mesmo que em menor número do que as mulheres e raparigas. É fundamental que a sociedade reconheça esta realidade e a aceite como tal.

Este reconhecimento é essencial para que os homens sobreviventes de abuso sexual se sintam com coragem e segurança para procurar apoio. Do mesmo modo que o trabalho de apoio às mulheres sobreviventes permitiu que as mesmas o fizessem. Este reconhecimento é vital porque ajuda a desconstruir mitos e crenças sobre o abuso sexual, nomeadamente a ideia errada de que os homens só podem abusar e não podem nunca ser abusados. No trabalho que fazemos de sensibilização, constatamos como esta crença continua enraizada e a ser propagada na educação dos rapazes e raparigas. E com esta disseminação, está-se a contribuir para que muitos sobreviventes sintam que não podem nem merecem procurar o apoio de que precisam e a enclausurá-los num silêncio de sofrimento.

Ao desmistificarmos estas e outras crenças, estamos a permitir que a sociedade cresça em matérias de violência e abuso sexual, e todas e todos ganhamos com este avanço. Por isso, precisamos de refletir também sobre quais as expetativas que temos sobre a noção de vítima. Não só é preciso desconstruir a ideia de que a vítima é uma pessoa frágil, fraca, chorosa, debilitada, como precisamos de reconhecer que a vítima nem sempre é mulher e que há homens que também o são.