Responsabilização das vítimas

Nas sessões de sensibilização que faço nas escolas, sempre que pergunto de quem é a responsabilidade do abuso a resposta costuma ser: “de quem abusa”. No entanto, como as respostas às perguntas diretas nem sempre revelam as crenças delas e deles, costumo apresentar algumas situações fictícias. Normalmente, estas incluem uma rapariga que conhece um rapaz numa discoteca, que usa roupas e decotes provocantes, mete conversa com ele, entre outros pormenores. E quando repito a mesma pergunta, o cenário muda e a resposta já é: “a responsabilidade é dele, MAS…”

Há sempre um mas. MAS ela meteu-se a jeito. MAS ela provocou. MAS ela estava a pedi-las. MAS ela não devia ter começado se não queria. A lista é infindável, e normalmente as jovens com quem interajo nas escolas conhecem demasiado bem estas frases acusatórias. Infelizmente, fazem parte do seu dia-a-dia e também da sua socialização.

No meio dos vários “mas”, quero focar pelo menos dois aspectos. O primeiro é que estes “mas” desviam o foco do abusador, o que lhe dá carta branca e imunidade. Desaparece da equação e o centro da atenção passa a ser a vítima e as diferentes formas como ela provocou a situação. É, no fundo, uma subversão de papéis que prejudica a vítima e beneficia quem comete o abuso.

A segunda é que estamos a culpabilizar a vítima, a responsabilizá-la pelo abuso e a propagar a cultura de responsabilização da vítima. Em 1914, o criminologista italiano Raffaele Garofalo afirmava que as vítimas podiam provocar um ataque criminal devido ao seu comportamento. Porém, por volta de 1949, quando se iniciaram os primeiros estudos de vitimologia, essas noções foram sendo desconstruídas e atualizadas para aquilo que deveria ser claro de entender: que o abusador é o único responsável pelo abuso.

Infelizmente, em 2018 continuamos a assistir a uma forte e enraizada cultura de responsabilização das vítimas que é disseminada pelas redes sociais, por pessoas que são figuras públicas ou vozes de referência, que chegam até às jovens e aos jovens, e que reforça o silenciamento de quem foi vítima de abuso sexual.

Quais são as consequências da cultura de responsabilização das vítimas?

Transmite-se à vítima que o abuso sexual do qual foi vítima é culpa dela; que de algum modo foi ela que desencadeou ou provocou, e por isso é a responsável por ter sido violada. Contribui-se para revitimização, solidificando a vergonha que é comum as e os sobreviventes de violência sexual sentirem, levando-a acreditar que de facto não tem legitimidade para procurar apoio porque foi responsável pelo abuso.

Em média, um homem sobrevivente de abuso sexual demora cerca de 26 anos até partilhar a sua história e procurar apoio, e as mulheres demoram 12 anos. Na Quebrar o Silêncio, temos casos de homens que só após 30, 40 ou 50 anos é que conseguiram, e pela primeira vez, procurar apoio e partilhar com alguém o que lhes aconteceu. Muitas vezes referem que tinham vergonha de falar e que sentiam que não o podiam fazê-lo de todo.

A cultura de responsabilização das vítimas aumenta este silêncio e reforça o ciclo de auto-culpabilização, solidifica crenças de auto-desvalorização — que muitas vezes são geradas como consequência da manipulação realizada pelo próprio abusador —, aumenta a imensa vergonha que é comum as vítimas experienciarem, e intensifica um conjunto de consequências que muitas vezes leva à incapacidade de conseguirem gerir a própria vida.

É preciso ter consciência do quão perigosa é esta cultura. Esta responsabilização deixa bem claro para todas as vítimas que permanecem em silêncio que nunca poderão falar, porque se o fizerem serão acusadas, vão apontar-lhes o dedo e responsabilizá-las pelo abuso.

Além de revelar um grande desconhecimento sobre estas matérias e sobre esta forma de crime, revela-se ainda uma perigosa falta de empatia pelas vítimas de abuso sexual. É necessário refletir: queremos contribuir para o aumento deste silêncio? Ou queremos fazer parte de uma sociedade que cria a segurança necessária para que estas pessoas quebrem o silêncio sem medo das consequências?