Ser homem vítima de abuso sexual continua a ser piada.

Um homem vítima de abuso sexual continua a ser motivo de piada, troça e gozo. Recentemente, a Rute Agulhas publicou um texto no Observador com o título «Fui abusado sexualmente… por uma mulher» no qual refletia sobre a necessidade de reconhecer que as mulheres também podem abusar sexualmente de homens e rapazes, apesar de sabermos que a maioria dos abusadores são, de facto, homens.

Pelo apelo à reflexão, partilhámos o texto na página de Facebook da Quebrar o Silêncio que, por sua vez, foi também partilhado por alguém. Nos comentários a esse post, um leitor diz ter sido abusado por uma mulher e a resposta que teve foi “Sim, e chupaste 2 quilos de limões para tirar o sorriso da cara…”. Noutro comentário, é referido que é difícil compreender que uma mulher possa abusar de um homem adulto. Para essa observação, a resposta foi a seguinte: “Se forem feias sim… Terão de recorrer a aditivos…”. Como reação ao próprio título «Fui abusado sexualmente… por uma mulher», um leitor refere: “e eu por muitas, e a todas o meu muito obrigado”.

Troça e gozo vs. compreensão e empatia

Nos casos de abuso sexual de homens em que o agressor é uma mulher, continuamos a ver que as principais reacções e comentários são de troça. Prevalece o preconceito de que um homem a sério não pode ser abusado por mulher porque, segundo as regras da masculinidade, viril, tradicional e clássica, homem que é homem está sempre pronto e disponível para sexo, logo qualquer iniciativa e contacto sexual por parte de uma mulher é caso de sorte. Portanto o homem não é vítima, é um sortudo.

Enquanto sociedade, o que nos falta para que comentários de troça como estes sejam residuais ou mesmo inexistentes? E o que será que nos falta para que a maioria sejam comentários solidários, de compreensão e empatia?

Precisamos de apostar seriamente numa educação que não limite o desenvolvimento dos rapazes. É fundamental parar de socializar pelo masculino e deixar de comparar esse masculino ao feminino, como se tudo o que seja feminino seja fraco e de evitar. É urgente transmitir desde cedo aos rapazes que chorar é um comportamento natural a determinadas emoções e sentimentos, e que não é de todo exclusivo às raparigas.

Enquanto continuarmos a insistir numa educação sexista, enquanto não apostarmos numa educação sem restrições e limites, o desenvolvimento de uma sociedade igualitária, livre de desigualdades e violência de género continuará longe de se concretizar.