Ignorância e apatia pelas vítimas de abuso sexual.

Estamos em 2018, mas continua a haver pessoas que dificultam os avanços dos direitos humanos. Bárbara Reis assina um texto de opinião no Público no qual apresenta a sua colossal desinformação, ignorância sobre violência e abuso sexual, e ainda demonstra uma profunda falta de empatia pelos jovens, agora homens, que foram vítimas de abuso sexual.

Ao responsabilizar tão convictamente as vítimas pelo abuso que sofreram – esquecendo que o único responsável é o abusador -, está a contribuir para o seu silenciamento e firmar de ideias erradas, mitos e crenças que constituem obstáculos para que os homens falem e procurem apoio. Com opiniões como a de Bárbara Reis, não admira que os homens passem mais de 20 anos em silêncio. Quando temos quem lhes aponte o dedo para os culpabilizar e co-responsabilizar pelo abuso, que alternativa têm se não permanecerem em silêncio?

No texto que assina refere que “os jovens que [o maestro] seduziu mediram a utilidade que o sexo com o maestro teria nas suas carreiras”, co-responsabilizando os jovens pelo abuso de que foram vítimas. Afinal de contas, segundo acredita, eles também ganharam algo com o abuso. Quão perverso é esta forma de olhar para casos de abuso sexual? E se nas sessões de sensibilização que fazemos nas escolas repetimos vezes sem conta que a responsabilidade é só do agressor, nunca da vítima, parece que precisamos de repetir em uníssono pelas redes sociais fora. Há quem ainda não tenha compreendido isso.

Quando Bárbara Reis questiona “ao fim de oito anos de encontros esporádicos e de uma evolução sexual notória, qual é o jovem que não percebe as intenções do outro?”, em alternativa proponho um exercício de empatia. Vamos pensar nos 8 anos de abuso nos quais estes jovens foram vítimas de violência sexual continuada. Foram 8 anos sob o domínio e controlo absolutos de James Levine, algo que caracteriza as relações que os abusadores fomentam com as vítimas. Controlo esse que contribui para silenciar quem passa por situações de abuso. Mas Bárbara Reis desconhece estas dinâmicas de poder dos abusadores, ou se conhece não as colocou em prática e deixou-se levar pelo preconceito.

Ao propor que se “faça essa pergunta no próximo jantar de amigos. E a seguir faça outra: quantos caíram nessa cantiga uma segunda vez?” estava apenas a demonstrar não só a profunda ignorância, como a extrema falta de empatia e compreensão que tem pelo sofrimento das vítimas.

Para finalizar, vou esclarecer algo que é importante. Todas e todos nós podemos ter uma voz ativa e contribuir de algum modo para a solução de um problema, ou então podemos fazer parte desse mesmo problema. Com este texto, Bárbara Reis exerceu o seu direito à opinião, usando a liberdade de expressão de que goza para fazer parte de um sistema que oprime e silencia as vítimas. Podia ter optado fazer parte de um movimento que luta pelos direitos e dignidade humana, mas optou por não fazê-lo. Optou por ser mais uma voz ruidosa que, não promovendo qualquer reflexão, se coligou ao problema.