Um homem não é sortudo se for assediado.

No decorrer desta semana, Katy Perry protagonizou dois momentos que constituem oportunidades para refletir sobre o que é assédio, nomeadamente por parte de mulheres, e como essas situações nem sempre são percecionadas como tal. A verdade é que continuamos a ver de forma diferente os casos em que um homem é vítima de assédio. Há quem romantize estas situações, as veja como entretenimento, ache piada e há também quem considere que foi uma sorte. Afinal de contas, “qual é o homem a sério que não gostava de ser assediado pela Katy Perry?” E, mais uma vez, lá temos nós de refletir e desconstruir os papéis tradicionais do homem e da mulher.

Para contextualizar

Primeiro caso. Pouco depois de Katy Perry receber um concorrente no American Idol, comenta “you’re so hot” e quando ele reage, a júri diz “don’t respect me”. De seguida, a artista refere ainda “if you’re not going to Hollywood maybe you come and hang out with me” para perguntar-lhe depois “are you engaged?”.

Segundo caso. O concorrente de 19 anos partilha que nunca tinha beijado uma rapariga (numa referência ao single da artista “I’ve kissed a girl”). O jovem refere que nunca o fez porque, para beijar uma rapariga, tem de estar numa relação e nunca namorou. “I can’t kiss a girl without being in a relationship” ao que Katy responde “come here”, insistindo que vá ter com ela, enquanto se levanta e oferece a cara. Quando o jovem a beija na cara, Katy observa que não fez barulho e por isso pede um segundo beijo, acabando por virar a cara repentinamente e beijar o concorrente nos lábios.

E se o júri fosse um homem? E a concorrente uma mulher?

Se em ambos os casos o júri fosse um homem e a concorrente uma rapariga, teríamos assistido às mesmas reações de desvalorização? Sobre o primeiro caso, li vários comentários nos quais observavam como o concorrente era “giro”, como se tal ajudasse a contribuir para definirmos se este episódio foi assédio ou não. E como estas situações precisam de ser contextualizadas, é bom esclarecer que a Katy Perry é júri num programa de talentos, o que a coloca numa posição superior e de pode relativamente aos concorrentes.

Em casos de assédio, qual o impacto de nos focarmos nas características físicas de quem passa por uma situação destas? O que resulta desta visão? Resulta que nos esquecemos de quem comete o assédio e também da sua responsabilidade no ato (responsabilidade, essa, total e exclusiva). E permitimos também a abertura para que se discuta algo que não devemos sequer considerar (as características físicas), dando oportunidade para que se encontrem motivos, por parte de quem comente o assédio, para se justificar e assim sair ileso. Um exemplo disto é quando os agressores dizem: “Ela era tão gira, era difícil não fazer nada“.

Mas voltando aos casos de assédio por parte de mulheres a homens. Não é por acaso que em Portugal um terço dos homens vítimas de assédio no trabalho não é capaz de explicar o que aconteceu, e um quarto desses homens não partilha com ninguém, seja família ou amigos, acabando por permanecer em silêncio. Estes homens chegam mesmo a responsabilizar-se pelo que lhes aconteceu, muitas vezes arranjando desculpas como, por exemplo, serem simpáticos ou mesmo atraentes e que de algum modo isso desencadeou o assédio. (ver  “Assédio sexual e moral no local de trabalho“).

Por isso, importa reforçar que as características físicas da vítima em nada devem pesar para compreender se a situação foi ou não de assédio.

Os homens não são mais sexuais do que as mulheres

Este é mais um exemplo para refletir novamente sobre o que esperamos do comportamento dos homens e das mulheres. Tal como Jennifer Marsh, vice presidente da RAINN, observa, “temos de acabar com a ideia de que os rapazes estão sempre à procura de sexo e que por isso é normal uma mulher ter relações sexuais com um rapaz”. Nos casos de assédio, o princípio é o mesmo. O rapaz, o homem, pensa constantemente em sexo, é uma necessidade superior, que não controla, algo que lhe está enraizado no código genético, e por isso é uma “sorte” quando uma mulher, qualquer mulher, tem uma iniciativa ou contacto sexual com ele (e na visão heterossexista, é sempre uma mulher, não pode nunca ser um homem). Portanto, nestes casos, nunca é assédio, nem abuso, é “sorte”. E como disse recentemente, assédio não é flirt, sedução, brincadeira ou uma correspondência amorosa entre duas pessoas.

Movimentos sociais como o #meToo

Movimentos como o #metoo e o #TimeIsUp foram, e são, instrumentais para a consciencialização do público em geral sobre estas matérias, e não os podemos deixar cair por terra quando algumas partes da equação mudam, mas cujo o resultado é o mesmo. Ou seja, numa sociedade igualitária, estas situações devem ser percecionadas como desadequadas e inapropriadas, independentemente de o júri ser composto por elementos masculinos ou femininos.

É sobre isto que temos de refletir também. E quando se diz “Violência é Violência” como na campanha inglesa da Mankind Initiative, o objetivo é alertar para que o conceito de violência é o mesmo, independentemente de ser um agressor ou agressora, e que não se pretende nunca esconder a realidade de que as mulheres e raparigas são afetadas em maior número nos casos de violência de género, doméstica, sexual e na intimidade.

Quando falamos de assédio e violência sexual, devemos todas e todos unir-nos e trabalhar para que estas situações sejam sempre vistas como uma violação dos direitos e dignidade humana.