Não sei mudar o óleo do carro, nem quero saber fazê-lo.

O que é ser homem? É saber mudar o pneu do carro em menos de um minuto em condições climatéricas extremas? É ter a capacidade inata de reparar qualquer electrodoméstico sem ler sequer o manual de instruções? É ser o macho alfa e estar no topo da hierarquia?

Quero deixar bem claro, desde já, e para evitar certos comentários, que mudar o pneu ou mesmo o óleo do carro é algo que qualquer pessoa pode saber fazer, se quiser aprender ou se isso lhe der jeito. Pode ser útil em certas ocasiões, é verdade, mas não é uma obrigação que venha no “Manual de Sobrevivência Diária dos Homens” ou esteja inscrito no nosso código genético, e não deve ser visto como uma obrigação por isso mesmo.

Por já ter mudado um pneu, não sinto que tenha comprovado a minha masculinidade. Tive de o fazer para me safar. Hoje, dependendo da situação, talvez ligasse para o seguro, para uma amiga para vir mudá-lo, chamasse um Uber ou mesmo abandonasse a viatura em desespero e a chorar desalmadamente, e nenhuma destas situações faria mossa ou teria impacto positivo ou negativo na minha masculinidade.

Coisas de homem

Há uns meses, ouvi a seguinte conversa entre duas mulheres: “Eu cá mudo o óleo do carro ou um pneu furado”, ao que a amiga respondeu, “isso não faço porque são coisas de homem”. Eu calado, a ouvir atentamente a conversa, brinquei com o assunto: “Eu sou homem e não sei mudar o óleo do carro” e sorri. Foi um travão. E por vezes, esta interrupção, mesmo em jeito de brincadeira, pode ser o suficiente para levar à reflexão. Refletir sobre as nossas crenças, ideias, os valores que temos e também sobre o que dizemos.
Tal como os micro-machismos e as micro-agressões, podemos não nos aperceber de que propagamos este tipo de ideias, mas por vezes uma pequena chamada de atenção pode ser o mote para mudarmos o nosso comportamento.

Por isso, no trabalho que a Quebrar o Silêncio faz nas escolas, falamos das coisas de homens e das coisas de mulher. Existem tais coisas? São ações, tarefas, responsabilidades, comportamentos exclusivos? Não pode um homem cuidar dos filhos, sem que isso seja uma “ajuda” ou visto como um favor, um ato de babysitting? É exclusivo das mulheres? Não pode uma mulher mudar uma lâmpada? Ou vai ter de esperar que o macho alfa faça isso por ela?
Por que razão não podemos libertar-nos destas caixas que nos definem e nos limitam, para podermos agir naturalmente sem receio de ser menos homem ou menos mulher?

Escolas e educação

Convidar rapazes e raparigas à reflexão sobre masculinidades e feminilidades é essencial. Porque a educação é feita através do masculino, e mais especificamente através do papel tradicional, e é fundamental fazer essa desconstrução. Se por um lado observamos que as escolas de hoje são consideradas contextos mais seguros sobre algumas temáticas relacionadas com a igualdade de direitos e oportunidades, por outro continuamos a registar que são espaços que veiculam os papéis tradicionais e que nem sempre permitem um desenvolvimento pleno de identidades e formas de expressão que fujam do tradicional.

Numa das nossas sessões de sensibilização, um jovem disse-me “eu nunca pude chorar, sempre que chorava o meu pai batia-me. Chorar era para os fracos, para os maricas”. A atual educação está a limitar emocionalmente os rapazes, estamos a dizer-lhes que não podem falar das suas emoções e dos seus sentimentos, que isso está fora do que lhes é esperado. Têm de ser fortes, não podem chorar e devem discriminar e controlar quem o faz. Eles próprios têm de policiar os fracos, os que são menos capazes, e fazer a manutenção da própria socialização que os limita. Noutra ocasião, quando perguntei o que é ser homem, um jovem de 15 anos respondeu-me no mesmo segundo “Ser homem é o pilar que suporta a família”. Este rapaz nem precisou de tempo para refletir na resposta, aquela definição saiu-lhe automaticamente. Não sei quanto a vós, mas para mim é preocupante um jovem pensar assim. Precisamos de interromper este ciclo.

E precisamos, todos e todas, pensar em conjunto: são estes os valores que queremos na base da educação dos rapazes e raparigas? Queremos continuar a propagar ideias que limitam a educação e o desenvolvimento das nossas crianças? Porque a verdade é que a mudança pela igualdade de direitos e oportunidades entre mulheres e homens não está a ir ao ritmo que poderia seguir e é urgente agirmos.