Vamos falar de sexo?

Falar sobre sexualidade com crianças não é fácil, mas é necessário. E porquê? Porque a educação sexual é uma ferramenta fundamental para a prevenção da violência e abuso sexual infantil.

Compreendo que alguns pais e mães se sintam desconfortáveis em fazê-lo, e que possam mesmo recear que falar destes assuntos promova o sexo precoce ou estimule comportamentos de abuso sexual entre crianças.

Para quem tenha este receio, proponho o seguinte exercício.

Quando se iniciou a prevenção rodoviária nas escolas, o seu objetivo era evitar acidentes, informando as crianças das diferentes regras. Não foi para aumentar ou estimular a incidência dos acidentes rodoviários que se criou esta iniciativa. Ensinámos as crianças a atravessar nas passadeiras, a reconhecer a diferença entre o sinal verde e o vermelho, a olhar para os lados antes de atravessar, entre várias outras indicações. Apesar de serem áreas diferentes, o princípio é o mesmo.

A responsabilidade é dos pais

No entanto, quero esclarecer que não pretendo colocar o peso da responsabilidade na criança quando falo de prevenção do abuso sexual infantil. Cabe aos pais e mães informarem-se e terem um papel ativo na educação dos seus filhos e filhas, e assim educar para a prevenção. Mas é fundamental que as crianças conheçam o seu corpo e consigam identificar as diferentes partes, para saberem como cuidar de si. Ou saberem por exemplo, que só os pais e mães podem tocar nas partes privadas e nos momentos de higiene e de saúde. Só para referir alguns exemplos.

Mas para tal, talvez seja necessário começar primeiro com os pais e mães. Quando conversamos sobre por que razão usam pipi ou pilinha em vez de vulva ou pénis, ouço muitas vezes a resposta “porque é mais fácil”. Mais fácil para quem? Para as crianças ou para nós? Se o nariz é desde sempre o nariz, o pé é desde sempre o pé, os olhos sempre foram os olhos, por que razão quando chegamos “àquelas partes” mudamos a abordagem?

E até mesmo nos casos em que se ensina “memés” e “popós” às crianças e mais tarde se atualiza para ovelhas e carros, por que razão os pipis e as pilinhas continuam a ser os pipis e pilinhas e não acompanham essa evolução?

Educar para a sexualidade

Por vezes, podemos não ter consciência, mas a nossa postura diária também é uma forma de comunicação sobre este tema, mesmo que não estejamos ativamente a ter uma conversa sobre sexualidade. Pode ser uma reação que temos a uma determinada palavra ou expressão, o mudar de canal ao vermos uma cena de sexo quando estamos em família, ou até na forma como lidamos com outras pessoas e na troca de afetos. E mesmo nas tarefas diárias e responsabilidades domésticas podemos educar ou deseducar para a sexualidade. As crianças são como esponjas e registam tudo, mesmo pequenas coisas que para nós podem não ter valor.

Consideremos o seguinte: crianças informadas sobre sexualidade e que conhecem o seu corpo são crianças conscientes e menos atraentes para o agressor. São crianças que poderão ter maior facilidade em identificar e partilhar em caso de abuso. Aconselho que se fale abertamente e com naturalidade sobre sexualidade, sexo e mesmo violência e abuso sexual. Isto é, sem preconceitos e de modo a não criar temas tabu. As crianças são seres curiosos por natureza. Quando elas colocam questões, dão-nos a oportunidade para perceber quais são os seus interesses, dúvidas e questões, e também o que originou tais perguntas. Ao não respondermos, perdermos essa oportunidade e é provável que as crianças procurem a resposta noutro local. Fica a reflexão: será melhor darmos nós as respostas ou deixarmos as crianças sem resposta, com dúvidas e desinformadas, prontas para irem procurar alternativas em noutro local?