O que pensam eles e elas sobre violência sexual e consentimento?

O trabalho que fazemos nas escolas é muito interessante, mas nem sempre é fácil. Não é fácil ouvir jovens (rapazes e raparigas) com 16 anos a afirmar que a vítima tem culpa do abuso que sofreu. Seja pouca, alguma ou até mesmo total, a vítima tem responsabilidade pelo abuso.

E para que não se pense que estou a exagerar, partilho alguns exemplos do que vou ouvindo:

  • “Se uma rapariga aceitar uma boleia e for abusada, a culpa é dela porque aceitou.”
  • “Toda a gente sabe que um convite para ir ver um filme, não é só para ver um filme. Se acontecer algo, a culpa é dela”
  • “Há raparigas que publicam fotos todas despidas na net, elas estão a provocar. É natural que aconteça alguma coisa”
  • “Se não forçarmos um pouco o não, esse não nunca será um sim”

Do que observo, a cultura de responsabilização das vítimas é muito vincada e parece estar enraizada na socialização deles e delas. É certo que há jovens mais conscientes sobre estas matérias, mas constato que é uma minoria. E nesta cultura de responsabilização da vítima, rapidamente se perde o foco no abusador – o único culpável e responsável pelo abuso. Em menos de nada, o discurso a que assisto parece dirigido na responsabilização da vítima e a encontrar argumentos para comprovar essa mesma responsabilização. Raramente encontro alguém que se empenhe em demonstrar que a responsabilidade é sempre do agressor, nunca da vítima.

Enquanto pais e mães, tutores, profissionais de educação e sociedade onde é que estamos a falhar? No modelo educacional dos rapazes e raparigas, pois continuamos a investir numa educação que limita o saudável desenvolvimento delas e deles.

A eles continuamos a dizer que o homem não chora, não fala dos sentimentos, tem de saber proteger-se e resolver os seus problemas sem ajuda, não pode ser vítima de abuso sexual, tem de ter muitas namoradas, e os comportamentos baseados na procura de sexo são valorizados como se fosse a prova última de que são realmente homens e estão a corresponder a uma necessidade biológica, no extremo oposto das mulheres. A elas continuamos a dizer que a mulher manipula e provoca o homem e que por isso é culpada e responsável pelo abuso, tem de saber acomodar as necessidades sexuais do homem, e precisa do homem para as “coisas de homem” e o seu espaço – o espaço do feminino – é delimitado pela liberdade, perspetiva, socialização e necessidade masculina.

Não está na altura de rompermos com estes modelos? De sairmos destas caixas onde colocamos rapazes e raparigas e que tanto limitam as nossas crianças?

Não generalizo claro, há jovens que, como já disse, não pensam assim, e há uma mudança a acontecer. Mas é lenta e não é a suficiente. Até alcançarmos uma mudança real e palpável, estamos e continuamos a falhar.

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