Homens e rapazes que promovem a igualdade de género

A educação para a cidadania parte do princípio que a escola é um meio privilegiado de socialização e que tem como missão promover a igualdade de oportunidades entre mulheres e homens. Sendo esta uma das áreas centrais e transversais à educação, como é possível observar tanta misoginia actualmente?

A educação é a base para tudo e é a nossa oportunidade de trabalharmos valores e comportamentos como forma de prevenção. Não podemos apostar exclusivamente nas respostas aos problemas, temos de investir na prevenção e para isso é preciso trabalhar com as crianças, nomeadamente com os rapazes.

O patriarcado não funciona e é uma organização social que tem de ser desconstruída. E podemos começar por desfazer a ideia de que “os problemas das mulheres são só das mulheres”. Não, já chega. Os homens podem e devem estar envolvidos na luta pelos direitos humanos, sejam específicos das mulheres ou não. Este argumento de que os problemas das mulheres não são dos homens cria a oportunidade para os homens poderem “lavar as mãos” e validar a eventual falta de participação dos mesmos. E por isso é importante termos cuidado na apresentação destas questões com nossas crianças (e volto a insistir), especialmente com os rapazes, para que não se alimente o afastamento da participação dos homens logo desde cedo.

As escolas representam um meio verdadeiramente privilegiado para que estas questões sejam basilares e trabalhadas desde cedo. E enquanto profissionais de educação precisamos de educar as nossas crianças para os valores que suportam a igualdade de género entre mulheres e homens. E se uma das questões passa pela forma como os valores patriarcais afectam as mulheres, é necessário investir num trabalho virado para a desconstrução dos valores tradicionais da masculinidade e abrir caminho para novas formas de masculinidade.

Ravi Verma (diretor da International Center for Research on Women’s work in Asia) trabalha em vários projectos com crianças e jovens em diferentes contextos (escolas, comunidade, sociedades desportivas, entre outros) para desafiar a ideia de masculinidade que os rapazes valorizam. Verma refere que as noções de controlo e de privilégio começam cedo na vida e nas próprias escolas. Segundo Verma, “pode dizer-se que é quase natural que os rapazes não vejam nada de errado quando as raparigas limpam e cozinham enquanto eles brincam. Estas noções e outras alimentam a desigualdade de género e também a visão romantizada da violência e da agressão”, o que dificulta a alteração dos valores e normas sociais.

Gostava de acreditar que, enquanto homens adultos, não aceitamos esta disparidade e desequilíbrio.  Mas infelizmente não é o que observo. Não generalizo, claro, mas vejo vários casos onde reina a falta de empatia, compreensão e a dificuldade no reconhecimento da desigualdade de género. Mesmo quando há evidências difíceis de ignorar como o documento “Igualdade de Género em Portugal: indicadores-chave 2017”.

As iniciativas que desafiam o patriarcado e os valores tradicionais da masculinidade também produzem resultados positivos para a saúde e educação dos homens. Além de contribuírem para reduzir a violência contra as mulheres, também podem contribuir para reduzir os casos de violência entre os próprios homens.  Portanto, para quem não acredita que estamos no “mesmo barco”, podemos considerar o seguinte: uma sociedade equitativa beneficia igualmente as mulheres e os homens.

Um exemplo positivo deste tipo de iniciativas é o que acontece na Suécia. De acordo com Anna Collins Falk (Especialista sénior em políticas de igualdade de género na Swedish International Development Cooperation Agency), observa-se que os homens suecos se organizam em prol da igualdade, procurando reivindicar direitos iguais, aprofundar a relação com os filhos e filhas, ter uma relação equitativa com as suas esposas e reclamar a partilha das tarefas domésticas.

Mas para chegarmos a esse ponto, volto a insistir na questão da educação. Como Christina Fink (directora de estudos de desenvolvimento internacional na universidade George Washington) defende, “se não mudarmos as atitudes dos homens em relação às mulheres, os projectos que se focam principalmente nas mulheres não terão sucesso”. E estes projectos devem considerar a mudança de atitudes e comportamentos dos homens e rapazes para melhorar as condições sociais das mulheres e raparigas.

E claro, quando isso acontece, os benefícios não são exclusivos às mulheres, são para todos e todas.

 

Texto escrito originalmente para a Capazes.pt