O feminismo e as vozes misóginas

Pensava que escrever algo como “poderão os homens ser feministas?” não traria nada de novo à discussão. No entanto, não parece que seja assim tão simples. Em alguns contextos talvez o seja, para algumas mulheres e homens é claro que um homem pode (e deve) ser feminista, mas será isso algo claro para a maioria? De acordo com o que se ouve e lê por aí, não me parece.

Ser feminista é cada vez mais importante, mas não é fácil. Vejamos a ideia que algumas pessoas têm do que é ser feminista. Chamar alguém de feminista, especialmente a uma mulher, pode ser (e é) usado como ofensa. Feminista é a chata, a má da fita; “lá vêm elas com aquelas coisas, não dão folga”.  E isto é perigoso. É fácil instrumentalizar e alimentar estas ideias para desvalorizar a defesa dos direitos humanos em geral, mas em concreto, os problemas que afectam especificamente os direitos humanos das mulheres.

“Lá vêm elas com aquelas coisas sem importância” é retirar a força e a importância aos problemas. Recentemente disseram-me que as feministas (não existiam nesta conversa homens feministas, só mulheres, naturalmente) são todas arrogantes e prepotentes. As vozes que escondem a misoginia infiltrada e poluente atacam em grande onde podem e de forma desesperada, como se fosse imperial destruir as feministas. E agarram qualquer migalha que podem. Vejamos recentemente a sugestão de Joana Amaral Dias, candidata pela Nós, Cidadãos! à Câmara Municipal de Lisboa, quando afirmou que “a forma de mandar uma mensagem clara à sociedade para dizer que não queremos ser apalpadas nos transportes públicos e que queremos ser respeitadas passa por criar zonas específicas para as mulheres no metro ou nos autocarros”. Instalou-se a celeuma e lá vieram as vozes da misoginia semi- camuflada, que de forma desonesta pegaram nessa sugestão e generalizaram como se fosse o pensamento colectivo das e dos feministas. Ridicularizar as feministas está na moda. É fácil e parece que é a norma. São as chatas e as más da fita. Ainda ontem me disseram “é fácil quando defendem coisas ridículas e sem fundamento.”

Não vejo como é possível um homem não ser feminista. E regressando rapidamente à questão das ofensas, já me chamaram de “feminista ressabiada” e não foi um elogio, como algumas pessoas já mo garantiram. Foi uma tentativa de ataque e uma tentativa de ofensa. Passou-me ao lado, mas a intenção estava lá e era clara. E é preciso bater o pé a algumas vozes que teimam em asfixiar o feminismo, mas também é preciso saber dialogar. Pode não ser fácil, mas é preciso descodificar porque é que há homens que dizem que as feministas “defendem coisas ridículas e sem fundamento”. Sem fundamento? Então o que é uma defesa com fundamento? Quando puxo pela conversa, compreendo por vezes que há uma certa saturação, mas essa saturação é apenas alimentada pelas ideias preconceituosas do que é ser feminista. E quando aprofundo ainda mais a conversa, apercebo-me que as questões “com fundamento” são os crimes de género contra as mulheres, como a violência doméstica, e a desigualdade salarial. O resto não interessa. É ruído, são não-problemas, e nestes estão os piropos, o assédio sexual, as questões dos transportes públicos, os manuais com mensagens baseadas em estereótipos de género, a discrepância nas responsabilidades e conciliação da vida privada familiar e profissional, entre muitas outras coisas, “pequenas, ridículas e sem fundamento”.

Ver um homem a ignorar e a invisibilizar os problemas que as mulheres enfrentam é para mim a constatação de que estamos a falhar na educação. Falhámos na formação das nossas crianças e na capacidade que temos de sentir empatia pelas outras pessoas.

Um homem feminista não é, no fundo, um homem que se preocupa com a igualdade de direitos e oportunidades entre mulheres e homens? Não é isso que todos e todas queremos?

Termino este texto com uma sugestão. Da próxima vez que vier uma “chata feminista”, vamos tentar compreender o porquê de ser “chata”, tentemos compreender a “falta de fundamento”. Em vez do ataque (muitas vezes desonesto) e do antagonismo instintivo, paremos e tentemos compreender de onde vem aquela “chatice “ toda. Talvez sejamos capazes de dialogar e compreender um pouco o “outro lado” que afinal de contas não está assim tão distante de nós.

 

Texto escrito originalmente para a Capazes.pt