Carta a ti, que abusaste sexualmente de mim

Escrevo-te hoje esta carta porque chegou o momento de encerrar definitivamente este assunto e de seres confrontado com a realidade: tu abusaste sexualmente de mim quando tinha 10 anos. Abusaste de uma criança que, como todas crianças, dependia dos adultos para a sua segurança. Aproximaste-te com as tuas mentiras e afectos, vieste como um amigo e deste-me atenção para criar uma relação comigo, uma relação que trouxe uma factura destruidora para a vida. Ao convidares-me para entrar na tua casa e te aproveitares sexualmente de mim, de uma criança de 10 anos, destruíste também parte dessa criança, parte de mim.

Cresci a acreditar que quando os adultos dão atenção vão cobrar por isso. Ensinaste-me que quando um homem dá afecto a um rapaz, a seguir vai abusar sexualmente dele. E fizeste-me acreditar que isso era natural, que era normal e aceitável que todos os homens tenham contacto sexual com crianças. Como podia considerar noutra coisa se o meu primeiro contacto sexual foi contigo, um adulto que se aproveitou da inocência de um rapaz de 10 anos e que dizia que era perfeitamente natural?

Para que não tenhas dúvidas das consequências dos teus actos, vou explicar-te algumas das tuas marcas que me cicatrizaram internamente. Por tua causa e do que me fizeste, cresci a achar que não tinha qualquer valor. Que não era merecedor do afecto de ninguém. Cresci a achar que mereci teres abusado de mim, de que eu era o culpado. Com as tuas mentiras e palavras engenhosas, semeaste em mim um sentido de culpa sem fim. Cresci com nojo de mim, sentia-me sujo como se fosse eu o culpado das tuas acções, como se fosse eu, uma simples criança, que tivesse abusado sexualmente de ti, um pobre e inocente homem que caiu na trama de um demónio sexual com 10 anos. Era assim que me sentia. Durante décadas fui eu o criminoso.

Tu abusaste sexualmente de mim mas caminhas livre. Sempre caminhaste livre e isento de qualquer peso na consciência, porque se o tivesses não terias coragem sequer de me abordar na rua, na presença da minha mãe, e de me convidares para ir à tua casa, de tacteares por que nunca mais aparecera na tua rua sequer. Jamais me esquecerei quando me levaste para a tua cama pela última vez e alguém bateu à porta, da tua expressão de pânico e terror; o meteres a tua mão na minha boca para não se ouvir a minha respiração sequer. Se tudo aquilo era natural, como sempre cuidadosamente reiteraste, porque tiveste aquela reacção? Foi nesse momento que compreendi que havia algo de errado. O teu pavor, naquele momento, não coincidia com as tuas palavras ilusórias sabiamente usadas desde o início. Aproveitei o teu susto e fugi para nunca mais voltar. Mas o mal, repetido vezes sem conta, estava feito e foi comigo que veio.

O mais contraditório disto é que, sendo tu um monstro que abusou de uma criança, a vergonha, o pejo, culpa, mal-estar, a vontade de morrer, o poço sem fim, os pesadelos, a asfixia, o sufoco, isso tudo ficou para mim. Fui eu quem carregou esse peso terrível durante toda a vida.

E ainda assim continuas a ser visto como um cidadão exemplar, uma pessoa amiga, de confiança. Mas isso acaba hoje, pois eu sei quem tu és. Eu conheço o teu verdadeiro eu e hoje é o dia de te veres ao espelho, de seres confrontado.

Hoje pego no espelho e mostro-te quem tu és. A ti e ao mundo.

Durante décadas fui eu que mantive segredo e isso protegeu-te. Tinha medo de que as pessoas que me amam me dissessem que tinha sido eu o abusador. A culpa, o nojo e a vergonha eram de tal modo paralisantes que me mantive calado, carregando tudo isto em silêncio. Mas isso acaba hoje. Recuso-me a ser vítima de um passado que não pude escapar.

Hoje devolvo-te tudo o que me deste, que nunca mereci e que nunca pedi. Hoje devolvo-te a tua vergonha, a tua indecência, a tua culpa. Nada disso me pertence.

Hoje devolvo-te o crime horrível e desumano que cometeste. O crime destruidor que cometeste a uma criança de 10 anos para que sintas o peso das tuas acções para o resto da tua vida. A vergonha é finalmente tua.

Hoje quebro o silêncio e declaro-te culpado!

Nota:

Durante algum tempo acreditei que não deveria publicar esta carta porque não corresponde à forma como me sinto atualmente e porque a experiência traumática, que passei na infância, está resolvida e ultrapassada. Hoje vivo uma vida que não é mais afetada pelas consequências da violência sexual.
No entanto, estas palavras não deixam de refletir como me senti durante anos e décadas, e como muitos homens vítimas / sobreviventes se sentem hoje e que sofrem em silêncio.
Nesse sentido, partilho publicamente esta carta como forma de sensibilizar o público em geral para a violência sexual contra homens e rapazes e para ajudar na visibilidade desta causa.
A realidade é que 1 em cada 6 homens é vítima de alguma forma de violência sexual antes dos 18 anos, e a maioria demora anos e décadas até procurar apoio. Partilhem por favor!

Se é ou foi vítima de violência sexual e precisa de apoio, por favor contacte a Quebrar o Silêncio (www.quebrarosilencio.pt) através do número 910 846 589 ou do e-mail apoio@quebrarosilencio.pt.

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